BOLETIM DE CONJUNTURA
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número 48– agosto/setembro 2025
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Interesses cruzados: o tarifaço de Trump e a disputa pelo
futuro digital
A carta enviada em 9 de julho pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump,
ao presidente Lula pode ser compreendida dentro de um histórico complexo de relações
entre os dois países, marcado por momentos de cooperação, mas também por episódios
de tensão. Diversos estudos apontam que, em 1964, o governo norte-americano ofereceu
apoio político e logístico ao golpe cívico militar que instaurou a ditadura de 21 anos no
Brasil - período cujas consequências sociais e institucionais ainda reverberam. Mais
recentemente, analistas e pesquisadores têm discutido o papel indireto de instituições e
interesses internacionais, incluindo norte-americanos, nos desdobramentos da Operação
Lava Jato, que contribuiu para o enfraquecimento de setores estratégicos da economia
brasileira, como a cadeia produtiva do petróleo e gás, vinculada ao pré-sal, além de ter
influenciado o cenário político que culminou no
impeachment
da presidenta Dilma
Rousseff, em 2016.
No documento, o presidente norte-americano tece críticas contundentes à
condução do processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e classifica o
julgamento no Supremo Tribunal Federal como “vergonha internacional”, afirmando que
“esse julgamento não deveria estar ocorrendo” e que se trata de uma “caça às bruxas que
deve acabar IMEDIATAMENTE!”.
A carta também anuncia medidas econômicas de retaliação: Trump impôs tarifas
de 50% sobre produtos brasileiros importados pelos EUA, justificando a decisão como
resposta ao que considera perseguição política e censura institucional no Brasil.
Para compreender a motivação por trás da agressividade do texto, é essencial
observar outros trechos da carta. Trump acusa o Brasil de promover “ataques insidiosos
contra eleições livres” e de violar “fundamentalmente a liberdade de expressão dos norte-
americanos”, citando decisões recentes do Supremo Tribunal Federal do Brasil, que emitiu
centenas de ordens de censura a plataformas de mídia social dos EUA, ameaçando-as com
multas de milhões de dólares e expulsão do mercado de mídia social brasileiro.
Muito além das tarifas sobre importações que afetam petróleo, café ou aviões, a carta
de Trump quer defender a presença destas
big techs
no Brasil, com regulação mínima e
acesso privilegiado aos cofres públicos. É da defesa desses interesses, muito mais
lucrativos e estratégicos para os EUA, que trata a carta de Trump.