APESAR DAS PRESSÕES, CUSTO DA CESTA BÁSICA NÃO CHEGA A DISPARAR
.....
São Paulo, 04 de março de 1999.
Em fevereiro, apesar das fortes altas verificadas em produtos cujos preços sofrem influência do comportamento do dólar, o custo do conjunto de gêneros de primeira necessidade não chegou a registrar aumentos muito expressivos nas dezesseis capitais em que o DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos - realiza, mensalmente, a Pesquisa Nacional da Cesta Básica. As elevações mais significativas ocorreram em Belo Horizonte (4,93%), Natal (4,35%), Vitória (4,19%) e João Pessoa (4,04%). Por outro lado, quatro capitais registraram queda no preço da ração essencial mínima, tal como definida no decreto-lei 399, de 30 de abril de 1938: Aracaju (-2,58%), Recife (-1,20%), Brasília (-1,07%) e Rio de Janeiro (-0,91%).
Apenas duas capitais mantêm o custo da cesta básica acima de R$ 100,00: São Paulo, que continua a ter o mais alto valor para os gêneros essenciais, com R$ 106,75, e Belo Horizonte (R$ 100,26), que atingiu este valor por ter registrado o maior aumento entre as capitais pesquisadas. Os menores custos foram verificados em Salvador (R$ 82,92) e Recife (R$ 84,29).
Com base no maior custo da cesta básica, o DIEESE estima que o salário mínimo necessário para a manutenção de um trabalhador e de sua família corresponderia, em fevereiro, a R$ 896,81, o que equivale a 6,9 vezes o salário mínimo vigente, de R$ 130,00.
Como na maioria das cidades pesquisadas o preço da cesta básica cresceu, o comprometimento da jornada com a aquisição dos produtos essenciais aumentou. Em fevereiro, o trabalhador de salário mínimo precisou cumprir 155 horas e 44 minutos para comprar os gêneros de primeira necessidade. Em janeiro, a mesma compra requeria 153 horas e 13 minutos. Há um ano, o trabalhador deveria cumprir mais de 157 horas para adquirir os mesmos bens.
O percentual do salário mínimo líquido (correspondente a R$ 119,60, após o desconto referente à Previdência Social) comprometido com a compra da cesta básica apresentou o mesmo comportamento. Em fevereiro chegou a 76,93%, enquanto em janeiro era de 75,66%. Em fevereiro do ano passado chegava a 77,71%.
Mesmo com as elevações ocorridas em fevereiro, três capitais acumulam variações negativas nos preços da cesta básica: Porto Alegre (-2,53%), Vitória (-1,09%) e Rio de Janeiro (-0,78%).
Comportamento dos preços
De maneira geral, os produtos cujos preços são determinados pelo comportamento do dólar tiveram aumentos na maioria das capitais em que são acompanhados. O fato de o trigo utilizado no país ser, na maior parte, importado, fez com que a farinha de trigo - produto pesquisado apenas na região Centro-Sul - e o pão francês (que tem o trigo como ingrediente básico) apresentassem aumentos em praticamente todas as capitais. A farinha de trigo subiu em todas as cidades em que seu preço é acompanhado, registrando variações entre 9,90%, no Rio de Janeiro, e 39,47%, em Vitória. O pão francês só não teve aumento em Brasília (-3,18%). Todas as outras quinze capitais apresentaram variações positivas, as mais significativas verificadas em João Pessoa (22,22%), Fortaleza (16,88%) e Vitória (15,38%).
Em outros casos, estão produtos que, embora produzidos no Brasil, têm seus preços determinados pelo dólar, uma vez que parte da produção é importada, e cujos preços também registraram altas expressivas. Neste caso encontra-se o café, que apresentou queda de 0,52% em João Pessoa, mas teve aumentos nas demais cidades, com destaque para Belém (23,12%), Fortaleza (17,13%) e Belo Horizonte (19,27%). Também nesta situação está o óleo de soja, com aumentos que variaram entre 3,36%, em João Pessoa, e 24,72%, em Vitória.
A carne é outro produto cujos preços registraram aumentos bastante significativos em praticamente todas as capitais pesquisadas. As únicas exceções foram Brasília, onde seu preço teve redução de 6,13%, e Vitória, onda queda ficou em 0,71%. Nas demais localidades, as altas variaram entre 1,65%, em Salvador, e 21,88%, em Aracaju.
As altas verificadas nesses produtos, porém, foram contrabalançadas por algumas quedas significativas. O tomate, produto sujeito a freqüentes oscilações, teve seu preço reduzido em quinze capitais, sendo os recuos mais expressivos apurados em Recife (-41,51%), Aracaju (-33,90%) e Rio de Janeiro (-28,83%). A única alta ocorreu em Natal (1,92%) Também o feijão - tanto o preto quanto o de cores - apresentou retração em quase todas as cidades, com exceção de Vitória (5,73%). As principais quedas foram verificadas em Belo Horizonte (-20,65%), Aracaju (-17,10%) e Salvador (-16,56%).
São Paulo.
A exemplo do que vem ocorrendo desde maio de 1998, São Paulo teve, em fevereiro, o maior custo para a cesta básica, com R$ 106,75, resultado de um aumento de 1,80%.
Dos treze produtos que compõem a ração essencial mínima prevista para a capital paulista, quatro registraram queda no último mês: feijão carioquinha (-7,89%), tomate (-3,77%), batata (-2,61%) e banana nanica (-2,27%). O leite tipo C manteve-se em igual patamar ao verificado no mês anterior, enquanto oito apresentaram alta: café em pó (13,37%), farinha de trigo (10,53%), óleo de soja (10,17%), pão francês (5,76%), carne bovina de primeira (5,69%), arroz agulhinha (2,94%), açúcar refinado (2,08%) e manteiga (1,46%).
O trabalhador paulistano que ganha salário mínimo comprometeu, em fevereiro, 89,26% de seu rendimento líquido para adquirir a cesta básica, um percentual ligeiramente superior ao de janeiro, quando este trabalhador gastava 87,68% de seu salário para realizar a mesma compra. Em fevereiro de 1998, porém, o comprometimento com a compra dos gêneros básicos era ligeiramente maior, ficando em 90,26%.
Quando se considera o tempo de trabalho necessário - caso em que o DIEESE leva em conta o salário mínimo bruto -, em fevereiro o trabalhador de salário mínimo precisava cumprir uma jornada de 180 horas e 39 minutos para adquirir a cesta básica, enquanto em janeiro este trabalhador comprometia um tempo um pouco menor para a mesma compra: 177 horas e 27 minutos. Em fevereiro do ano passado, o comprometimento era superior, chegando a 182 horas e 41 minutos.
Tabelas da Cesta Básica Nacional
Quanto se trabalha para comer em Região Centro-Oeste
Tabela - Custo e variação da cesta básica em dezesseis capitais Fevereiro 1999
Capital
Valor da cesta básica (R$)
Variação mensal (%)
Porcentagem do salário mínimo líquido
Tempo de Trabalho
Variação acumulada no ano
São Paulo
106,75
1,80
89,26
180h 39min
4,56
Belo Horizonte
100,26
4,93
83,83
169h 40min
7,14
Curitiba
98,58
3,16
82,42
166h 50min
2,52
Porto Alegre
97,94
0,53
81,89
165h 45min
-2,53
Brasília
97,37
-1,07
81,41
164h 47min
3,12
Rio de Janeiro
93,30
-0,91
78,01
157h 54min
-0,78
Florianópolis
91,91
2,45
76,85
155h32min
3,63
Fortaleza
90,71
3,27
75,84
153h31min
7,91
Belém
89,77
2,02
75,06
151h 55min
6,53
Aracaju
89,08
-2,58
74,48
150h 45min
1,83
Natal
88,92
4,35
74,35
150h 29min
8,19
Goiânia
88,45
1,21
73,95
149h 41min
2,54
João Pessoa
87,07
4,04
72,80
147h 21min
5,98
Vitória
84,73
4,19
70,84
143h 23min
-1,09
Recife
84,29
-1,20
70,48
142h 39min
5,42
Salvador
82,92
1,20
69,33
140h 20min
6,53
Fonte: Pesquisa Nacional da Cesta Básica - DIEESE.
Ração Essencial Preços Médios em fevereiro de 1999 (em R$)
.....
Produtos
Centro-Oeste
Sudeste
Sul
Norte/Nordeste
Brasília
Goiânia
Belo Horizonte
Rio de Janeiro
São Paulo
Vitória
Curitiba
Floria- nópolis
Porto Alegre
Aracaju
Belém
Fortaleza
João Pessoa
Natal
Recife
Salvador
Carne
4,59
4,26
4,78
4,77
5,20
4,22
5,08
4,97
5,08
5,46
4,11
4,85
5,28
5,22
4,82
4,37
Leite
0,65
0,57
0,75
0,76
0,80
0,66
0,70
0,64
0,62
0,77
0,77
0,80
0,85
0,78
0,86
0,77
Feijáo
2,07
1,77
1,58
1,51
2,10
1,64
1,57
1,80
1,50
1,69
2,12
1,83
1,65
1,66
1,68
1,51
Arroz
0,99
1,06
0,92
1,01
1,05
1,08
1,02
1,11
1,03
1,30
1,07
1,20
1,17
1,16
1,17
1,20
Farinha de trigo 1
0,83
0,82
0,77
0,74
0,84
1,06
0,64
0,85
0,84
0,78
0,89
0,76
1,10
1,03
1,03
0,75
Batata 2
0,95
0,88
0,89
0,81
1,12
0,52
0,83
0,76
0,95
-
-
-
-
-
-
-
Tomate
0,97
0,86
0,81
0,79
1,02
0,57
0,61
0,52
0,72
0,78
1,05
1,10
0,81
1,06
0,62
0,84
Pão
2,13
2,28
3,03
2,90
2,57
3,00
2,20
2,46
2,56
2,41
2,70
2,77
2,20
2,01
2,38
2,09
Café
6,58
7,14
6,50
6,12
6,79
6,64
7,04
5,95
5,97
6,86
7,10
7,06
6,38
5,97
6,88
7,14
Banana
1,59
0,83
1,51
0,95
1,32
0,68
1,59
0,61
1,19
1,33
1,73
1,18
1,31
1,46
1,35
1,46
Açúcar
0,60
0,39
0,58
0,47
0,49
0,56
0,45
0,50
0,52
0,59
0,63
0,53
0,62
0,58
0,47
0,48
Óleo
1,32
1,36
1,37
1,29
1,30
1,11
1,25
1,47
1,31
1,66
1,47
1,57
1,54
1,45
1,37
1,38
Manteiga
6,93
8,65
7,69
6,89
10,17
5,50
8,05
8,25
7,30
7,96
4,43
7,05
6,94
7,07
7,85
8,97
Gasto Mensal
97,37
88,45
100,26
93,30
106,75
84,73
98,58
91,91
97,94
89,08
89,77
90,71
87,07
88,92
84,29
82,92
Tempo de trabalho
164h 47min
149h 41min
169h 40min
157h 54min
180h 39min
143h 23min
166h 50min
155h 32min
165h 45min
150h 45min
151h 55min
153h 31min
147h 21min
150h 29min
142h 39min
140h 20min
Cidade mais cara
5º
12º
2º
6º
1º
14º
3º
7º
4º
10º
9º
8º
13º
11º
15º
16º
(1)Farinha de mandioca no Nordeste; farinha de trigonas demais Regiões. (2)Ração do Nordeste não prevê consumo de batata. Os preços médios da Ração Essencial referem-se a 1 quilo, 1 litro e 1 dúzia, exceto no caso do óleo (900ml). No mês de fevereiro de 1999, o salário mínimo em todas as cidades pesquisadas valia R$ 130,00.
DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Económicos