CARNE É A PRINCIPAL RESPONSÁVEL PELA ALTA DA CESTA BÁSICA
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São Paulo, 06 de dezembro de 1999.
Apenas duas capitais - Porto Alegre (-1,87%) e Brasília (-0,44%) - registraram, em novembro, recuo no preço dos gêneros de primeira necessidade, segundo apurou o DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos. Estes dados fazem parte da Pesquisa Nacional da Cesta Básica, realizada mensalmente em dezesseis capitais, que apurou que a carne foi o principal fator para o aumento ocorrido. Ainda que catorze cidades tenham apresentado elevações, estas foram menos significativas que as apuradas em outubro. As maiores variações ocorreram em Florianópolis (5,77%), Vitória (3,80%) e Belo Horizonte (3,10%).
Em conseqüência do comportamento verificado em novembro, sete capitais registraram custo para o conjunto de alimentos essenciais superior a R$ 100,00: São Paulo (R$ 111,91), Curitiba (R$ 106,69), Porto Alegre (R$ 104,07), Belo Horizonte (R$ 103,32), Brasília (R$ 102,55) e Rio de Janeiro (R$ 101,97). Os menores valores foram verificados em Salvador (R$ 81,54), Fortaleza (R$ 83,49) e Recife (R$ 85,02).
Com base na cesta de maior valor - mais uma vez São Paulo - e considerando o dispositivo constitucional que prevê que o salário mínimo deveria ser suficiente para suprir as necessidades de uma família com alimentação, moradia, transportes, educação, vestuário, saúde, higiene, lazer e previdência social - o DIEESE estima que o salário mínimo deveria ser de R$ 940,16, ou seja, 6,9 vezes o mínimo vigente, de R$ 136,00.
Tabelas da Cesta Básica Nacional
Quanto se trabalha para comer em Região Centro-Oeste
O aumento do custo dos produtos alimentícios essenciais, em novembro último, exigiu, do trabalhador que ganha salário mínimo, na média das dezesseis capitais, o cumprimento de uma jornada maior para adquirir os gêneros básicos: 154 horas e 6 minutos, contra 151 horas e 45 minutos no mês anterior. Em comparação com novembro de 1999, a situação é ainda pior, pois naquele mês era necessária uma jornada de 147 horas e 58 minutos.
O mesmo raciocínio pode ser realizado levando em consideração o custo da cesta em relação ao salário mínimo líquido, isto é, depois de descontada a parcela referente à Previdência Social. Em novembro, na média das dezesseis capitais, a cesta correspondia a 76,14% do salário mínimo líquido, enquanto, em outubro representava 74,98%, e em novembro do ano passado ficava em 73,10%.
Esses dados indicam que o custo da cesta subiu mais que o salário mínimo. A variação em doze meses do custo da cesta básica, em treze das dezesseis capitais, foi superior ao reajuste de 4,62% concedido ao salário mínimo, em maio último.
As maiores variações acumuladas este ano ocorreram em Florianópolis (16,50%), Belém (11,90%), Belo Horizonte (11,04%) e Curitiba (10,95%), enquanto Aracaju (-0,82%) e Fortaleza (-0,68%) registraram variações negativas. Em doze meses, as maiores altas foram verificadas, basicamente, nas mesmas localidades, mas em posições diferentes: Belém (16,36%), Florianópolis (15,29%), Belo Horizonte (14,12%), Belém (13,79%) e Curitiba (11,18%). A única variação negativa neste período ocorreu em Fortaleza (-0,61%) que, em conjunto com Aracaju (1,21%) e Porto Alegre (3,52%), constituem o grupo de cidades que tiveram um comportamento de alta inferior ao do salário mínimo.
Comportamento dos preços
Dentre os produtos pesquisados pelo DIEESE, parte deles registraram, em novembro, alta na maioria das capitais. A maior pressão partiu da carne bovina, produto de maior peso dentro da cesta, que registrou aumento em quinze das dezesseis cidades. As principais altas ocorreram em Goiânia (6,98%), Belo Horizonte (6,82%), Curitiba (6,02%), Fortaleza (5,72%) e Florianópolis (5,65%). A única exceção foi o Rio de Janeiro, onde o preço do produto caiu 1,66%.
O arroz também revelou, em novembro, comportamento altista em catorze capitais, com destaque para Florianópolis (25,81%), Recife (15,00%), João Pessoa (13,70%) e Porto Alegre (11,29%).
O óleo de soja subiu em treze capitais, em especial em Natal (7,09%), Aracaju (5,15%) e Recife (5,00%).
Os preços do café foram majorados em onze capitais, sendo observados os maiores aumentos em Vitória (13,64%), Natal (12,64%) e Florianópolis (10,26%).
Apenas dois produtos apresentaram recuo em seus preços na maioria das localidades: banana e feijão, que tiveram queda, respectivamente, em onze e em oito cidades. No caso da banana, as maiores reduções ocorreram em Belo Horizonte (-17,51%), Porto Alegre (-12,42%), João Pessoa (-11,15%) e Curitiba (-10,17%). Houve estabilidade em Aracaju e, das quatro capitais em que ocorreram aumentos, o mais significativo foi apurado no Rio de Janeiro (12,36%).
O preço do feijão registrou queda tanto em capitais onde o produto acompanhado é da variedade cores - como Goiânia (-1,53%), Belo Horizonte (-5,95%), São Paulo (-3,37%), João Pessoa (-5,26%) e Salvador (-6,73%) - quanto naquelas em que é pesquisado o feijão preto - Rio de Janeiro (-2,33%), Vitória (-3,54%) e Porto Alegre (-5,45%). Houve estabilidade em Curitiba (feijão preto) e em Belem (tipo cores).
Os aumentos ocorridos em novembro foram determinados pela prolongada seca e conseqüente prolongação da entressafra, como é o caso da carne e do arroz. A alta nos preços do café foi causado pela seca, com forte quebra da próxima safra, especialmente em Minas Gerais, que vem provocando aumento do seu preços no mercado internacional. A redução na produção do açúcar nesta e na próxima safra da cana, também sofre reflexo do preço no mercado internacional.
São Paulo
A capital paullista continuou a ser, em novembro, a capital mais cara do país, com a cesta custando R$ 111,91, resultado de um discreto aumento de 0,72%. As maiores pressões altistas originaram-se na carne bovina de primeira (5,43%) e no açúcar refinado (8,62%). Também subiram a farinha de trigo (3,40%), a manteiga (1,91%), o arroz agulhinha (1,20%) e o óleo de soja (0,83%). O leite in natura tipo C e o pão francês mantiveram-se estabilizados. Cinco produtos apresentaram recuo em seus preços: banana nanica (-4,51%), batata (-4,49%), tomate (-4,41%), feijão carioquinha (-3,37%) e café (-0,24%).
Um trabalhador cuja remuneração corresponde a um salário mínimo precisou cumprir, em novembro, uma jornada de 181 horas e 1 minuto para a aquisição da cesta, um tempo ligeiramente maior que o de outubro - 179 horas e 44 minutos - mas bem mais expressivo que o de novembro de 1998: 172 horas e 13 minutos.
A relação entre o custo da cesta e o salário mínimo líquido - após o desconto previdenciário - mostra o mesmo fenômeno. Em novembro último, o custo da cesta representava 89,44% do rendimnto líquido, proporção pouco superior à de outubro (88,80%) e mais significativa em relação à de novembro de 1998, que era de 85,08%.
Ao longo deste ano, a cesta básica na capital paulista acumula uma alta de 9,62%, taxa bastante semelhante à elevação em doze meses, de 9,97%.
Tabela - Pesquisa Nacional da Cesta Básica Custo e variação da cesta básica em dezesseis capitais Brasil - novembro de 1999
Capital
Valor da cesta básica (R$)
Variação mensal (%)
Porcentagem do salário mínimo líquido
Tempo de Trabalho
Variação no ano
(%)
Variação Anual
(%)
São Paulo
111,91
0,72
89,44
181h 01min
9,62
9,97
Curitiba
106,69
0,58
85,27
172h 35min
10,95
11,18
Porto Alegre
104,07
-1,87
83,18
168h 21min
3,57
3,52
Belo Horizonte
103,91
3,10
83,05
168h 05min
11,04
14,12
Florianópolis
103,32
5,77
82,58
167h 08min
16,50
15,29
Brasília
102,55
-0,44
81,96
165h 53min
8,61
8,58
Rio de Janeiro
101,97
1,18
81,50
164h 57min
8,44
9,07
Belém
94,30
2,29
75,37
152h 32min
11,90
16,36
Vitória
93,49
3,80
74,72
151h 13min
9,14
13,79
Goiânia
88,96
2,58
71,10
143h 54min
3,13
6,46
João Pessoa
88,46
0,55
70,70
143h 06min
7,67
10,24
Natal
87,79
2,73
70,16
142h 00min
6,81
10,01
Aracaju
86,76
0,77
69,34
140h 21min
-0,82
1,21
Recife
85,02
0,76
67,95
137h 31min
6,33
7,96
Fortaleza
83,49
2,25
66,73
135h 03min
-0,68
-0,61
Salvador
81,54
0,59
65,17
131h 54min
4,75
6,24
Fonte: DIEESE.
Ração Essencial Preços Médios em novembro de 1999 (em R$)
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Produtos
Centro-Oeste
Sudeste
Sul
Norte/Nordeste
Brasília
Goiânia
Belo Horizonte
Rio de Janeiro
São Paulo
Vitória
Curitiba
Floria- nópolis
Porto Alegre
Aracaju
Belém
Fortaleza
João Pessoa
Natal
Recife
Salvador
Carne
5,45
5,06
5,64
5,32
6,21
5,31
6,16
5,81
5,66
5,23
4,46
5,34
6,12
6,02
4,87
4,86
Leite
0,77
0,69
0,83
0,86
0,80
0,69
0,72
0,68
0,73
0,79
0,93
0,86
0,96
0,88
0,86
0,80
Feijáo
1,47
1,29
1,44
1,21
1,72
1,33
1,33
1,37
1,04
1,21
1,43
1,36
1,28
1,31
1,41
1,23
Arroz
0,82
0,86
0,78
0,94
0,84
0,92
0,98
0,98
0,81
1,19
0,88
0,95
1,05
1,03
1,11
0,99
Farinha de trigo 1
0,83
0,84
0,85
0,91
1,01
0,92
0,71
1,00
0,93
0,97
0,91
0,91
1,01
1,14
1,08
0,87
Batata 2
0,75
0,70
0,62
0,62
0,85
0,41
0,72
0,62
0,79
-
-
-
-
-
-
-
Tomate
1,04
0,86
1,17
1,32
1,30
1,08
1,21
1,25
1,59
1,02
1,54
0,80
0,74
0,96
0,83
0,89
Pão
2,40
2,09
3,05
2,98
2,56
3,00
2,36
2,68
2,61
2,06
2,64
2,55
2,20
2,00
2,28
2,11
Café
6,83
6,39
6,49
6,30
6,82
5,83
6,81
6,45
6,16
5,92
6,86
6,45
6,30
6,54
7,16
6,90
Banana
1,70
0,87
1,13
1,09
1,27
0,65
1,06
0,64
0,77
1,34
1,67
0,83
1,20
0,98
1,22
1,07
Açúcar
0,68
0,50
0,62
0,65
0,63
0,59
0,66
0,78
0,69
0,70
0,77
0,62
0,83
0,59
0,69
0,66
Óleo
1,17
1,14
1,15
1,21
1,21
1,19
1,34
1,31
1,17
1,43
1,37
1,40
1,34
1,36
1,26
1,23
Manteiga
7,22
8,39
7,74
7,15
10,65
6,40
7,51
7,50
6,75
7,84
4,96
7,60
7,72
8,57
8,10
8,68
Gasto Mensal
102,55
88,96
103,91
101,97
111,91
93,49
106,69
103,32
104,07
86,76
94,30
83,49
88,46
87,79
85,02
81,54
Tempo de trabalho
165h 53min
143h 54min
168h 05min
164h 57min
181h 02min
151h 14min
172h 35min
167h 08min
168h 21min
140h 21min
152h 33min
135h 03min
143h 06min
142h 01min
137h 32min
131h 54min
Cidade mais cara
6º
10º
4º
7º
1º
9º
2º
5º
3º
13º
8º
15º
11º
12º
14º
16º
(1)Farinha de mandioca no Nordeste; farinha de trigonas demais Regiões. (2)Ração do Nordeste não prevê consumo de batata. Os preços médios da Ração Essencial referem-se a 1 quilo, 1 litro e 1 dúzia, exceto no caso do óleo (900ml). No mês de novembro de 1999, o salário mínimo em todas as cidades pesquisadas valia R$ 136,00.
Salário mínimo nominal e necessário Novembro de 1997 a novembro de 1999
Período
Salário mínimo nominal
Salário mínimo necessário
1997
Novembro
R$ 120,00
R$ 802,13
Dezembro
R$ 120,00
R$ 837,16
1998
Janeiro
R$ 120,00
R$ 864,88
Fevereiro
R$ 120,00
R$ 854,55
Março
R$ 120,00
R$ 869,76
Abril
R$ 120,00
R$ 916,30
Maio
R$ 130,00
R$ 942,09
Junho
R$ 130,00
R$ 936,46
Julho
R$ 130,00
R$ 882,78
Agosto
R$ 130,00
R$ 852,11
Setembro
R$ 130,00
R$ 844,55
Outubro
R$ 130,00
R$ 861,02
Novembro
R$ 130,00
R$
854,89
Dezembro
R$ 130,00
R$
857,66
1999
Janeiro
R$ 130,00
R$
880,93
Fevereiro
R$ 130,00
R$
896,81
Março
R$ 130,00
R$
892,86
Abril
R$ 130,00
R$
878,24
Maio
R$ 136,00
R$
882,53
Junho
R$ 136,00
R$
896,22
Julho
R$ 136,00
R$
870,76
Agosto
R$ 136,00
R$
892,44
Setembro
R$ 136,00
R$ 908,74
Outubro
R$ 136,00
R$ 933,44
Novembro
R$ 136,00
R$ 940,16
.....
Salário mínimo nominal: salário mínimo vigente.
Salário mínimo necessário: Salário mínimo de acordo com o preceito constitucional "salário mínimo fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender às suas necessidades vitais básicas e às de sua família, como moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, reajustado periodicamente, de modo a preservar o poder aquisitivo, vedada sua vinculação para qualquer fim" (Constituição da República Federativa do Brasil, capítulo II, Dos Direitos Sociais, artigo 7°;, inciso IV). Foi considerado em cada Mês o maior valor da ração essencial das localidades pesquisadas. A família considerada é de dois adultos e duas crianças, sendo que estas consomem o equivalente a um adulto. Ponderando-se o gasto familiar, chegamos ao salário mínimo necessário.
DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Económicos