São Paulo, 08 de abril de 1999.
O preço do conjunto de gêneros de primeira necessidade caiu, em março, em onze das dezesseis capitais em que o DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos - realiza, mensalmente, a Pesquisa Nacional da Cesta Básica. As quedas mais significativas foram verificadas em Fortaleza (-3,36%), Goiânia (-3,04%), Belo Horizonte (-1,85%), Aracaju (-1,54%), Recife (-1,20%) e Florianópolis (-1,01%). Apesar deste comportamento predominante, cinco cidades apresentaram elevações, em três casos bastante expressivas: João Pessoa (4,21%), Vitória (3,99%) e Rio de Janeiro (3,40%).
Mais uma vez, o custo mais elevado para os produtos que compõem a ração essencial mínima - conforme estabelecida pelo decreto-lei 399, de 30 de abril de 1938 - foi apurado em São Paulo, onde os treze produtos básicos previstos para a região custaram, em março, R$ 106,28. A capital paulista foi a única a ter a cesta com valor superior a R$ 100,00, e seu custo foi 8,00% superior ao da segunda capital mais cara, Belo Horizonte, localidade em que os gêneros de primeira necessidade puderam ser adquiridos por R$ 98,41. As capitais com os preços mais elevados, na seqüência, também são do Centro-Sul do país: Curitiba (R$ 97,94), Porto Alegre (R$ 97,08), Brasília (R$ 96,98) e Rio de Janeiro (R$ 96,47). Os menores valores foram registrados em duas cidades do Nordeste: Recife (R$ 83,28) e Salvador (R$ 83,04).
Com base no maior custo da cesta básica - novamente São Paulo -, o DIEESE estima que o valor do salário mínimo necessário deveria ser R$ 892,86, correspondente a 6,9 vezes o valor vigente de R$ 130,00. Somente se estivesse neste patamar, poderia cumprir o que determina a Constituição Brasileira, segundo a qual o salário mínimo deveria ser suficiente para a manutenção de um trabalhador e de sua família, atendendo às despesas referentes a moradia, alimentação, vestuário, saúde, educação, transporte, higiene, lazer e previdência.
Considerando o valor bruto do salário mínimo vigente, um trabalhador cuja renda situa-se neste patamar precisou trabalhar, na média simples das dezesseis capitais, 155 horas e 20 minutos para adquirir, em março, o conjunto de gêneros essenciais. Como no último mês predominaram as quedas no preço da cesta básica, a situação foi mais favorável que em fevereiro, quando a jornada comprometida era de 155 horas e 44 minutos. Também há melhora em relação a março de 1998, quando eram necessárias 164 horas.
Quando se leva em conta o salário mínimo líquido (R$ 119,60, depois do desconto da contribuição para a previdência), o custo médio da cesta representou 76,74%, percentual inferior tanto ao de fevereiro deste ano (76,93%) quanto ao de março de 1998 (80,98%).
Safra determina queda
As retrações do custo da cesta básica, em março, foram determinadas por produtos que estão em época de safra, como o feijão, cujo preço teve queda em dez capitais. Ocorreram recuos expressivos tanto em cidades em que o produto pesquisado é o feijão preto - como Florianópolis (-10,00%) e Brasília (-7,30%) - quanto naquelas em que é acompanhado o preço do feijão de cores - caso de Fortaleza (-7,65%) e Natal (-7,23%).
Também o arroz teve seu preço reduzido em oito capitais por estar em período de safra. Os destaques foram registrados em Porto Alegre (-6,80%) e Fortaleza (-5,09%). Mesmo assim, em cinco localidades ocorreram aumentos; em uma delas, o Rio de Janeiro, significativo (11,88%), e em três cidades o preço manteve-se estabilizado: Belém, Florianópolis e Vitória.
O tomate, produto cujo preço é sujeito a variações constantes, apresentou queda em seus preços em onze capitais, justificadas, em março, pela diminuição das chuvas em regiões produtoras. As reduções mais expressivas ocorreram em Porto Alegre (-34,72%), Florianópolis (-15,38%), Fortaleza (-13,64%) e Goiânia (-12,79%).
O preço da batata, pesquisado nas nove capitais da região Centro-Sul, apresentou queda em oito, as mais significativas verificadas em Florianópolis (-21,05%), Brasília (-20,00%), Belo Horizonte (-13,48%) e Goiânia (-11,36%). A exceção foi o Rio de Janeiro, onde o preço permaneceu estável.
Nos casos da banana e da carne bovina, também foram apuradas reduções de preço em oito capitais. A diminuição das chuvas em regiões produtoras permitiu esse comportamento no preço da banana, com destaque para Curitiba (-13,83%) e Belo Horizonte (-13,24%). Os principais aumentos verificaram-se em João Pessoa (12,21%) e Rio de Janeiro (10,52%), justamente cidades em que o custo total da cesta básica apresentou forte elevação.
A carne bovina - que inicialmente teve alta significativa por efeito da desvalorização do câmbio, uma vez que é produto de exportação - apresentou recuo, principalmente em Aracaju (-11,52%), Recife (-3,92%) e Goiânia (-3,52%). No entanto, outras oito capitais apresentaram altas, com destaque para Vitória (6,40%) - tornando-se o fator mais importante para o aumento no custo total da cesta, nesta capital - e Brasília (3,27%).
Dólar determina elevações
Os produtos em que houve predominância de aumento dos preços foram aqueles que têm seu custo relacionado com o dólar. A farinha de trigo, pesquisada apenas no Centro-Sul do país teve alta em todas as nove cidades em que seu preço é acompanhado, especialmente no Rio de Janeiro (24,32%), Porto Alegre (13,49%), Florianópolis (11,72%) e São Paulo (11,11%). O pão francês, que tem a farinha como componente básico, subiu em onze capitais, destacando-se Brasília (13,62%), Florianópolis (8,13%), Vitória (6,67%), Salvador (6,70%) e Porto Alegre (6,25%).
O café, produto de exportação, e óleo de soja, derivado da soja, grão cujo preço também é cotado em dólar, também subiram em grande parte das localidades em que são pesquisados. No caso do café, os aumentos foram apurados em onze capitais, com destaque para o comportamento verificado em Porto Alegre (25,98%) e Florianópolis (10,36%). Em Vitória - capital do Espírito Santo, grande produtor de café -, seu preço caiu 14,82%.
O óleo de soja, por sua vez, teve aumento em oito capitais e queda nas outras oito. As maiores altas ocorreram em Vitória (20,72%) e Curitiba (8,00%).
O comportamento altista também predominou no preço do leite - fato verificado em doze cidades, com estabilidade nas outras quatro - e da manteiga - cujo preço subiu em catorze localidades. Vitória (13,74%) , João Pessoa (9,41%), Belo Horizonte (6,57%) e Brasília (6,15%) foram as capitais em que o leite aumentou. A manteiga teve as principais elevações em Vitória (17,19%), Curitiba (10,60%), Rio de Janeiro (8,70%) e João Pessoa (7,29%).
As três capitais em que ocorreram os principais aumentos do custo da cesta apresentaram alta generalizada no preço dos produtos. Nenhum dos doze produtos pesquisados em Jõao Pessoa teve queda e dois deles - farinha de mandioca e pão francês - mantiveram-se estáveis. Em Vitória, três produtos apresentaram queda: café (-14,82%), açúcar (-19,64%) e a batata (-7,69%); três tiveram estabilidade (feijão, arroz e tomate), enquanto os demais subiram. No Rio de Janeiro, apenas a carne teve seu preço reduzido, em 0,42%, a batata e o tomate apresentaram variação nula e outros dez produtos subiram.
Repetindo o comportamento verificado desde maio de 1998, São Paulo registrou o maior custo para a cesta básica: R$ 106,28, em março, apesar da redução de 0,44% no preço do conjunto de alimentos essenciais e de o aumento no ano (4,10%) e em doze meses (4,23%) ser inferior ao apurado em outras cidades.
Dos treze produtos que compõem a cesta básica da capital paulista, cinco tiveram redução em seus preços: tomate (-8,82%), feijão carioquinha (-2,86%), batata (-8,04%), banana nanica (-1,52%) e arroz agulhinha tipo 2 (-0,95%). Leite tipo C e açúcar refinado permaneceram estáveis. As altas ocorreram no preço da carne bovina de primeira (1,54%), farinha de trigo (11,11%), pão francês (1,56%), café em pó (4,91%), óleo de soja (5,38%) e manteiga (2,62%).
O trabalhador paulistano que ganha salário mínimo comprometeu, em março, 179 horas e 52 minutos de sua jornada mensal com a aquisição dos gêneros essenciais. Em fevereiro, ele tinha que trabalhar um pouco mais: 180 horas e 39 minutos. Em março de 1998, porém, o tempo de trabalho necessário para realizar a mesma compra era bem maior, chegando a 189 horas e 48 minutos.
A mesma situação é verificada quando se considera o percentual do salário mínimo líquido comprometido para a mesma aquisição. Em março último, o custo da cesta representou 88,86% do rendimento recebido, enquanto em fevereiro correspondia a 89,26% e em março do ano passado chegava a 93,78%.
Tabela - Custo e variação da cesta básica em dezesseis capitais Março de 1999
Capital
Valor da cesta básica (R$)
Variação mensal (%)
Porcentagem do salário mínimo líquido
Tempo de Trabalho
Variação acumulada no ano
Variação
anual
São Paulo
106,28
-0,44
88,86
179h 52min
4,10
4,23
Belo Horizonte
98,41
-1,85
82,28
166h 32min
5,16
3,82
Curitiba
97,94
-0,65
81,89
165h 45min
1,85
-5,40
Porto Alegre
97,08
-0,88
81,17
164h 17min
-3,38
-2,46
Brasília
96,98
-0,40
81,09
164h 07min
2,71
5,68
Rio de Janeiro
96,47
3,40
80,66
163h 15min
2,59
-3,88
Florianópolis
90,98
-1,01
76,07
153h 58min
2,58
-0,93
João Pessoa
90,74
4,21
75,87
153h 34min
10,44
11,94
Belém
89,89
0,13
75,16
152h 07min
6,67
5,37
Natal
88,21
-0,80
73,75
149h 17min
7,32
2,46
Vitória
88,11
3,99
73,67
149h 07min
2,86
1,85
Aracaju
87,71
-1,54
73,34
148h 26min
0,26
4,84
Fortaleza
87,66
-3,36
73,29
148h 21min
4,28
4,00
Goiânia
85,76
-3,04
71,71
145h 08min
-0,58
4,97
Recife
83,28
-1,20
69,63
140h 56min
4,15
4,00
Salvador
83,04
0,14
69,43
140h 32min
6,68
6,56
Fonte: Pesquisa Nacional da Cesta Básica - DIEESE.
Ração Essencial Preços Médios em março de 1999 (em R$)
.....
Produtos
Centro-Oeste
Sudeste
Sul
Norte/Nordeste
Brasília
Goiânia
Belo Horizonte
Rio de Janeiro
São Paulo
Vitória
Curitiba
Floria- nópolis
Porto Alegre
Aracaju
Belém
Fortaleza
João Pessoa
Natal
Recife
Salvador
Carne
4,74
4,11
4,68
4,75
5,28
4,49
5,12
4,92
5,19
4,83
4,07
4,75
5,34
5,14
4,63
4,40
Leite
0,69
0,59
0,80
0,79
0,80
0,75
0,71
0,66
0,65
0,80
0,78
0,80
0,93
0,78
0,88
0,77
Feijáo
1,92
1,67
1,60
1,53
2,04
1,64
1,58
1,62
1,43
1,81
2,09
1,69
1,69
1,54
1,63
1,50
Arroz
0,98
1,03
0,90
1,13
1,04
1,08
1,03
1,11
0,96
1,28
1,07
1,14
1,18
1,11
1,18
1,21
Farinha de trigo 1
0,86
0,88
0,85
0,92
0,93
1,07
0,70
0,95
0,95
0,80
0,90
0,75
1,10
1,11
1,03
0,73
Batata 2
0,76
0,78
0,77
0,81
1,03
0,48
0,80
0,60
0,86
-
-
-
-
-
-
-
Tomate
0,88
0,75
0,77
0,79
0,93
0,57
0,58
0,44
0,47
0,81
1,00
0,95
0,87
0,97
0,70
0,78
Pão
2,42
2,29
3,14
3,06
2,61
3,20
2,17
2,66
2,72
2,47
2,70
2,67
2,20
2,11
2,38
2,23
Café
6,50
7,16
6,59
6,35
7,11
5,65
7,51
6,57
7,51
6,84
7,64
7,09
6,66
5,97
6,68
7,58
Banana
1,44
0,83
1,31
1,05
1,30
0,69
1,37
0,60
1,10
1,36
1,82
1,27
1,47
1,53
1,26
1,41
Açúcar
0,60
0,39
0,57
0,48
0,49
0,45
0,48
0,50
0,52
0,59
0,63
0,52
0,72
0,59
0,51
0,50
Óleo
1,27
1,27
1,33
1,30
1,37
1,34
1,35
1,49
1,28
1,55
1,52
1,52
1,55
1,44
1,35
1,43
Manteiga
7,62
8,80
7,92
7,49
10,44
6,45
8,90
8,35
7,50
7,86
4,50
7,15
7,45
7,31
7,10
9,07
Gasto Mensal
96,98
85,76
98,41
96,47
106,28
88,11
97,94
90,98
97,08
87,71
89,89
87,66
90,74
88,33
83,14
83,04
Tempo de trabalho
164h 07min
145h 08min
166h 32min
163h 15min
179h 52min
149h 07min
165h 45min
153h 58min
164h 17min
148h 26min
152h 07min
148h 21min
153h 34min
149h 29min
140h 42min
140h 32min
Cidade mais cara
5º
14º
2º
6º
1º
11º
3º
7º
4º
12º
9º
13º
8º
10º
15º
16º
(1)Farinha de mandioca no Nordeste; farinha de trigonas demais Regiões. (2)Ração do Nordeste não prevê consumo de batata. Os preços médios da Ração Essencial referem-se a 1 quilo, 1 litro e 1 dúzia, exceto no caso do óleo (900ml). No mês de março de 1999, o salário mínimo em todas as cidades pesquisadas valia R$ 130,00.
DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Económicos