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DIEESE - Comportamento dos preços durante os 8 anos do Real - Julho/2002
Comportamento dos preços durante os 8 anos do Real


..... São Paulo, 05 de junho de 2002.

Desde a implantação do Plano Real, há oito anos, os preços acumulam uma alta de 126,0%, segundo o Índice do Custo de Vida (ICV) calculado pelo DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos. Esta variação acumulada é derivada de um comportamento bastante distinto dos preços segundo o tipo de bem comercializado - produto ou serviço –; se os preços são administrados ou referem-se ao poder público, ao mercado concorrencial ou ao oligopolizado, ou dependem ainda do período a que ser referem, se antes ou após a desvalorização cambial.

Para analisar este comportamento dos preços, os itens do ICV-DIEESE foram agregados segundo o mercado consumidor e o tipo de bem. Na tabela 1, os dados refletem as variações acumuladas dos preços durante os oito anos do Real, nas tabela 2 e 3 estes resultados estão subdivididos em dois períodos, antes e após a desvalorização cambial, respectivamente.


Tabela 1 - Inflação acumulada nos 8 anos do Real
Julho/94 a junho/02
ICV-DIEESE
Município de São Paulo
Mercado Tipo Peso em jun/94 Contribuição até jun/02 Taxa acumulada de jul/94 a jun/02


Administrado/Público


Produtos

6,0%

12,3pp

205,0%


Serviços

9,2%

23,9pp

259,6%


Administrado/Público Total

15,2%

36,2pp

238,1%


Oligopólio


Produtos

7,0%

6,9pp

98,5%


Serviços

2,9%

14,3pp

499,9%


Oligopólio Total

9,9%

21,2pp

215,1%


Concorrêncial


Produtos

54,7%

28,6pp

52,3%


Serviços

20,2%

40,0pp

197,6%


Concorrêncial Total

75,0%

68,6pp

91,5%


Total


Produtos

67,7%

47,8pp

70,6%


Serviços

32,3%

78,2pp

242,1%


Total Global

100,0%

126,0pp

126,0%

Fonte: DIEESE

A importância no gasto familiar de cada um destes grupos e subgrupos e as variações desses preços determinaram o impacto da inflação para as famílias paulistanas nestes anos. Pelos dados, verifica-se que o peso dos produtos (67,7%) dentro do orçamento doméstico é bem superior aos dos serviços (32,3%). Da mesma forma, na agregação por tipo de mercado, a grande maioria dos produtos e serviços é classificada como concorrencial (75,0%), seguido dos itens cujo preço é público ou administrado pelo poder público (15,2%) e, com menor peso, os pertencentes aos setores oligopolizados (9,9%).

A inflação acumulada no Real - de 126,0% - derivou de taxas bastante distintas entre os tipos de bens. Os produtos subiram, em média, 70,6% contra um aumento dos serviços da ordem de 242,1%. Dado o peso destes bens no orçamento doméstico, os produtos contribuíram com 47,8 pontos percentuais (pp) na taxa acumulada e os serviços foram responsáveis por 78,2 pp, no calculo da inflação deste período.

Em relação aos mercados, os bens cujos preços são determinados pela concorrência (91,5%) subiram bem menos que aqueles cujos preços são administrados (238,1%) e os do mercado oligopolizado (215,1%). A contribuição de cada um destes grupos no calculo inflacionário foi: concorrenciais 68,6 pp, administrados 36,2 pp e oligopolizadods 21,2 pp.

Essas diferenças entre tipos de bens e de mercados refletem um comportamento bastante recessivo para aqueles produtos e serviços que dependem das forças da oferta e demanda da economia. Por outro lado, os setores cujos preços podem ser estabelecidos por regras exógenas ao mercado, como os administrados e os oligopolizados apresentaram reajustes muito acentuados.

No bens administrados, observam-se taxas elevadas tanto nos serviços (259,6%) como nos produtos (205,0%). Este grupo engloba os serviços públicos como: energia, água e esgoto, telefonia, impostos e transporte coletivo e os produtos como: combustível e gás de cozinha.

Os bens classificados como pertencentes ao mercado oligopolizado registraram taxas mais significativas nos serviços (499,9%) frente aos produtos (98,5%); no primeiro caso encontram-se os seguros e convênios médico, que contribuíram com 14,3 pp no resultado da inflação, e no segundo os medicamentos e produtos farmacêuticos (6,9 pp).

Gráfico 1 - Pesos e contribuições por tipo de bem
Índice do Custo de Vida - (ICV-DIEESE)


Pesos e Contribuições por tipo de Bem

Produtos Pesos

68%


Contribuição

48%


Variação

71%


Serviços


Pesos

32%


Contribuição

78%


Variação

242%


Total


Pesos

100%


Contribuição

126%


Variação

126%


Gráfico 2 - Pesos e contribuições por tipo de mercado
Índice do Custo de Vida - (ICV-DIEESE)
Pesos e Contribuições por tipo de mercado

Pesos Contribuição Variação
Administrado

15%

36%

238%
Oligopólio

10%

21%

215%
Concorrencial

75%

69%

92%
Total

100%

126%

126%


Análise por período - antes e após desvalorização do Real

As diferenças entre bens e serviços e os diferentes mercados não se deram de forma constante ao longo do tempo. Na primeira fase do Plano, período de jul/94 a dez/98, antes da desvalorização do Real (tabela 2), a inflação acumulada foi da ordem de 70,9%, sendo bem mais acentuada nos serviços (161,6%) que nos produtos (24,6%). A explicação para este comportamento pode estar nos contratos de serviços, que foram indexados pela inflação pré-Real, como aluguéis, escolas, seguros e convênios, bem como o realinhamento de tarifas públicas, com vistas às privatizações.



Tabela 2 - Inflação acumulada antes da desvalorização do Real

Julho/94 a dez/98

ICV-DIEESE

Município de São Paulo
Mercado Tipos de itens Peso jun/1994 Contribuição até dez/98 Taxas acumuladas de jul/94 a dez/98
Administrado/Público Produtos

6,0%

2,4pp

40,9%
Serviços

9,2%

14,1pp

153,5%
Administrado/Público Total

15,2%

16,6pp

109,1%
Oligopólio Produtos

7,0%

3,7pp

52,6%
Serviços

2,9%

5,4pp

189,3%


Oligopólio Total

9,9%

9,1pp

92,4%
Concorrêncial

Produtos

54,7%

12,6pp

23,0%
Serviços

20,2%

32,6pp

161,3%
Concorrêncial Total

75,0%

45,2pp

60,3%
Total

Produtos

67,7%

18,7pp

27,6%
Serviços

32,3%

52,2pp

161,6%
Total Global

100,0%

70,9pp

70,9%
Fonte: DIEESE

Na primeira fase, bens e serviços pertencentes ao grupo dos administrados/públicos tiveram alta de 109,1%, pressionados principalmente pelos serviços (153,5%), uma vez que os produtos, que compreendem basicamente os derivados de petróleo, aumentaram pouco, dada a política de câmbio fixo, adotada neste período.

Os bens classificados como oligopólios subiram 92,4%, mais uma vez em conseqüência do comportamento dos serviços (189,3%), com elevação bem mais significativa que os produtos (52,6%). Este comportamento tem origem no fato de a indústria farmacêutica - principal setor entre os oligopólios considerados no ICV - utiliza insumos importados e neste período o câmbio estava subvalorizado.

As menores taxas foram registradas entre os bens que enfrentam a concorrência de mercado (60,3%). Os produtos subiram apenas 27,6%, mas os serviços, devido à forte influência da indexação dos preços contratos pela inflação pré-Real, registraram aumento de 161,3%.

Após a desvalorização do Real, a partir de janeiro de 1999, a inflação acumulou uma taxa de 32,2% e o perfil dos reajustes de preços se altera, principalmente entre os tipos de bens, apontando para certo equilíbrio entre produtos (33,7%) e serviços (30,8%).
Tabela 3 - Inflação acumulada após a desvalorização do Real
Jan/99 a jun/02
ICV-DIEESE
Município de São Paulo
Mercado Tipo Peso de dez/1998 Contribuição até jun/02 Taxas acumuladas jan/99 a jun/02
Administrado/Público Produtos

4,9%

5,8pp

116,5%


Serviços

13,7%

5,7pp

41,8%


Administrado/Público Total

18,6%

11,5pp

61,7%


Oligopólio


Produtos

6,2%

1,9pp

30,0%


Serviços

4,8%

5,2pp

107,3%


Oligopólio Total

11,1%

7,1pp

63,8%


Concorrêncial


Produtos

39,4%

9,4pp

23,9%


Serviços

30,9%

4,3pp

13,9%


Concorrêncial Total

70,3%

13,7pp

19,5%


Total


Produtos

50,6%

17,0pp

33,7%


Serviços

49,4%

15,2pp

30,8%


Total Global

100,0%

32,2pp

32,2%

Fonte: DIEESE

Ainda que haja relativo equilíbrio entre as variações totais de produtos e serviços, o mesmo não se verifica quando se analisa cada um dos diferentes mercados. Os itens cujos preços são classificados como administrado/público subiram 61,7%, mas o aumento dos produtos (116,5%) foi bem mais significativo que o dos serviços (41,8%). Isto porque estes produtos são constituídos pelos derivados do petróleo, e governo que administra estes preços, permitiu o repasse da alta do dólar para o consumidor final.

No mercado oligopolizado o aumento chegou a 63,88%, no período, devido a pressão dos serviços (107,3%). Os produtos - compreendidos basicamente pelos medicamentos - aumentaram apenas 30,0%, ainda que a alta do dólar fizesse supor alta bem mais significativa. No entanto, a entrada no mercado dos medicamentes genéricos e um maior controle em seus preços por parte do governo impediu aumentos exagerados.

Os itens do mercado concorrencial registraram, nesta segunda fase do Real, as menores taxas: 19,5%. Os serviços aumentaram 13,9%, enquanto os produtos tiveram alta ligeiramente superior (23,9%). Estas taxas mais baixas resultam da forte recessão da economia neste período.

Assim, a análise da inflação nestes oito anos registra uma taxa de 126,0% que tem origem principalmente nos grupos de bens que não enfrentam as forças de mercado, como os administrados e os oligopolizados. Estes grupos contribuíram com 58,4 pp no resultado do ICV deste período e respondem apenas por um quarto dos gastos familiares.

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