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DIEESE - Índice do Custo de Vida - Fevereiro/99
LIBERAÇÃO CAMBIAL CONTRIBUI PARA ICV DE 1,15%

..... São Paulo, 05 de março de 1999.

O custo de vida no município de São Paulo registrou, em fevereiro, alta de 1,15%, a segunda maior desde janeiro de 1997 (quando chegou a 2,12%), segundo cálculo do DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos. Esta taxa indica uma retração de 0,24 ponto percentual em relação à apurada em janeiro último (1,38%), mas resultuou de pressões bastante distintas das verificadas no mês anterior.

Enquanto em janeiro os principais fatores de aumentos de preços (mensalidades escolares, transportes coletivos e convênios e seguros saúde ) não se relacionavam ao comportamento do dólar, em fevereiro o impacto da desvalorização cambial iniciada em meados de janeiro começa a aparecer. Para captar estes efeitos, os itens do ICV foram divididos em dois grupos: os relacionados com o mercado externo e os não relacionados (tabela 1).

Dos itens qud compõem o ICV, 16,8% têm alguma relação com o mercado externo, quer pela importação ou pela exportação, sendo portanto sensíveis aos aumentos da taxa cambial. Os demais 83,2%, em princípio, não mantêm relação direta ou indireta com os preços externos. O resultado de 1,15% do índice de fevereiro tem origem no aumento de 3,88% observados nos itens relacionados ao mercado externo, que contribuíram com 0,65 p.p. em seu cálculo final. Os demais bens e serviços incluídos no segundo grupo apresentaram um aumento médio de 0,60% em seus preços, com uma contribuição no cálculo de 0,50 p.p.


Tabela 1 - Impactos no ICV/DIEESE dos grupos de produtos segundo sua relação com a taxa cambial

Grupos de produtos e serviços

Pesos

Contribuição

Taxa var. % dos Preço

Relacionados ao comércio esterno

16,8%

0,65 pp

3,88%

Não relacionados ao comércio externo

83,2%

0,50 pp

0,60%

ICV-Total

100,0%

1,15%

pp: ponto percentual

Os grupos de despesas que mais subiram, em fevereiro - Equipamentos Domésticos e Alimentação - constituem-se em exemplos do impacto do comportamento do câmbio. As maiores e menores taxas podem ser verificadas na tabela 2.

Tabela 2 - Maiores e menores variações
fevereiro de 1999

Grupos e subgrupos

Maiores

Grupos e subgrupos

Menores

Equipamentos Domésticos

3,00%

Vestuário

-0,18%

Eletrodomésticos e Equipamentos

3,73%

Roupas

-0,01%

Utensílios Domésticos

1,75%

Calçados

-0,84%

Móveis

2,32%

Habitação

-0,09%

Rouparia

2,06%

Locação,Impostos e Condomínio

-1,06%

Alimentação

2,60%

Operação do Domicílio

0,19%

Produtos in-natura e semi-elaborados

3,41%

Conservação do Domicílio

1,59%

Indústria da Alimentação

3,27%





Alimentação Fora do Domicílio

-0,25%





Transportes

1,66%





Individual

1,40%





Coletivo

2,22%






O aumento apurado no grupo Equipamentos Domésticos (3,00%) derivou, principalmente, da alta de 3,73% ocorrida entre os eletrodomésticos. Com a alta do dólar, os produtos importados encareceram e permitiram que os nacionais também subissem. Os maiores aumentos foram detectados entre os eletrônicos (5,60%), em especial aparelhos de som (8,86%) e televisão (9,34%).

Na Alimentação (2,60%), as taxas dos subgrupos in natura e semi-elaborados (3,41%) e da indústria alimentícia (3,27%) foram bastante elevadas. A pressão partiu de produtos relacionados com o mercado externo (importados ou exportáveis), mas contou com a contribuição de setores que se aproveitaram da onda de aumentos para reajustar seus preços.

Os principais aumentos dos produtos in-natura e semi-elaborados foram detectados na carne bovina (6,09%) e no frango (6,15%). Na indústria da alimentação os reajustes ocorreram nos derivados do trigo, tais como a farinha (10,3%), macarrão com ovos (5,68%), pão francês (5,63%) e pães industrializados (8,88%); e de soja, caso do óleo de soja (9,94%) e da margarina (1,05%). Outros produtos, fortemente relacionados ao mercado externo, sofreram altas consideráveis, como o café em pó (13,34%) e o azeite estrangeiro (9,07%) . Porém, alguns bens foram reajustados sem nenhuma relação aparente com a variação do dólar, como é o caso dos derivados de leite (3,73%), em especial o leite longa vida (11,45%) e os queijos (4,67%).

O reajuste dos ônibus, ocorrido na segunda semana de janeiro e que não se relacionou com o dólar, ainda refletiu no índice de fevereiro, com uma taxa de 3,37%, pressionando a inflação do grupo Transportes (1,66%).

Dentre os grupos que acusaram taxas negativas destacam-se o Vestuário (-0,18%), devido as liquidações de fim de estação e a Habitação (-0,10%) conseqüência da taxa negativa observada nos aluguéis (-1,69%).

Impactos diferenciados
O aumento de preços, em fevereiro, afetou as famílias de forma diversa. Quanto menor o poder aquisitivo da família, maior foi a taxa. Assim, as famílias de menor renda, que compõem o estrato 1 e ganham em média, R$ 377,49 -foram as mais penalizadas pelas altas, e sua taxa atingiu 1,46%. No estrato 2 - que engloba as famílias com rendimento médio de R$ 934,17 - o índice ficou em 1,41% , enquanto as famílias de maior renda - que recebem em média R$ 2.792,90 - reunidas no estrato 3 tiveram a menor alta: 0,95% (tabela 3).

Tabela 3 - Taxas de inflação por estrato de rendimento
janeiro e fevereiro de 1999

Índices

jan./99

fev./99

Diferença

Geral

1,38%

1,15%

-0,24pp

Estrato 1

1,35%

1,46%

0,11pp

Estrato 2

1,53%

1,41%

-0,12pp

Estrato 3

1,33%

0,95%

-0,38pp


Em relação a inflação de janeiro (tabela 3), os índices de fevereiro foram menores para os estratos 3 e 2, com -0,38 p.p. e - 0,12 p.p., respectivamente. As famílias de menores rendas, estrato 1, apresentaram uma piora em seu poder aquisitivo, com aumento de sua taxa em 0,11 p.p..

Índices por Estrato
O fator discriminante da inflação por estrato de renda, foi sem dúvida a Alimentação, que contribuiu com 1,01 p. p. no cálculo do índice do estrato 1, com 0,91 p.p. no do estrato 2 e apenas 0,52 p.p no índice do estrato 3 (tabela 4). Este impacto diferenciado é conseqüência da forma como as famílias realizam seus gastos: as de menor poder aquisitivo, estrato 1, destinam 34,84% de sua renda para a compra de alimentos, já as de maiores rendas, estrato 3, gastam somente 22,86% da renda neste grupo, destinando proporcionalmente mais para Educação e Saúde, frente às demais faixas de renda.


Tabela 4 - Taxa e contribuição segundo estrato de renda
fevereiro de 1999

Grupos de Gastos

Índice

Geral

Estrato 1

Estrato 2

Estrato 3

Taxa (em %)

Contribuição (em pp)

Taxa (em %)

Contribuição (em pp)

Taxa (em%)

Contribuição (em pp)

Taxa (em %)

Contribuição (em pp)

Alimentação

2,60

0,69

2,89

1,01

2,96

0,91

2,30

0,52

Habitação

-0,09

-0,02

-0,06

-0,01

-0,02

0,00

-0,14

-0,03

Equipamentos Domésticos

3,00

0,14

3,85

0,17

2,82

0,16

2,84

0,13

Transportes

1,66

0,23

2,18

0,20

1,90

0,25

1,48

0,23

Vestuário

-0,18

-0,01

-0,39

-0,02

-0,29

-0,02

-0,23

-0,01

Educação e Leitura

0,40

0,03

0,58

0,02

0,44

0,02

0,38

0,04

Saúde

0,50

0,05

0,73

0,06

0,67

0,06

0,40

0,05

Recreação

1,10

0,02

1,54

0,01

1,06

0,02

1,11

0,02

Despesas Pessoais

0,33

0,01

0,44

0,02

0,40

0,02

0,26

0,01

Despesas Diversas

0,18

0,00

0,19

0,00

0,18

0,00

0,17

0,00

Total

1,15

1,15

1,46

1,46

1,41

1,41

0,95

0,95


Os aumentos verificados nos Equipamentos Domésticos afetaram as famílias de forma relativamente semelhante, contribuindo para o cálculo de seus índices com 0,17 p.p., para o estrato 1, a 0,13 p.p. para o estrato 3.

Já o aumento no grupo Transportes resultou em maior impacto para o estrato 2, com uma contribuição no cálculo de seu índice de 0,25 p.p., e menor para o estrato 1, com uma contribuição de 0,20 p.p.

Índices Acumulados

O ICV-DIEESE, nos últimos doze meses - entre março de 1998 e fevereiro de 1999 - acumula uma alta de 2,05%, porém, com taxas diferentes conforme o estrato de renda, ( tabela 5) com 2,93% para o estrato 1, 2,42% para o estrato 2 e com menor taxa o estrato 3 com 1,64%.

Tabela 5 - Taxas acumulados por estrato de rendimento

Índices

No ano 1999

Anual

Total

2,55%

2,05%

Estrato 1

2,83%

2,93%

Estrato 2

2,96%

2,42%

Estrato 3

2,30%

1,64%



Devido às grandes alterações na política cambial, com reflexos no mercado interno, é importante analisar suas conseqüências nos preços no ano de 1999. O índice acumulado nos dois primeiros meses de 1999 já atingiu 2,55% e as maiores e menores taxas deste período constam da tabela 6.

Tabela 6 - Maiores e menores variações
janeiro e fevereiro de 1999

Grupos e subgrupos

Maiores taxas em 1999

Grupos e subgrupos

Menores taxas em 1999

Transportes

4,83%

Vestuário

-1,28%

.Individual

2,85%

.Roupas

-1,21%

.Coletivo

9,37%

.Calçados

-1,43%

Alimentação

4,37%

Habitação

0,24%

.Produtos in-natura e semi-elaborados

7,13%

.Locação,Impostos e Condomínio

-0,56%

.Indústria da Alimentação

4,05%

.Operação do Domicílio

0,46%

.Alimentação Fora do Domicílio

-0,41%

.Conservação do Domicílio

1,72%

Educação e Leitura

3,41%





.Educação

3,60%





.Leitura

0,79%






Os aumentos deste ano nos grupos Transportes ( 4,83%) e Educação e Leitura (3,41%) nada têm a ver com a valorização do dólar. No primeiro grupo, é resultado, principalmente, do aumento das tarifas do transporte coletivo (9,37%) e no segundo, ao subgrupo educação (3,60%) em função dos ajustes nas mensalidades escolares.

Na Alimentação (4,37%) é onde se encontra a maioria dos produtos com taxas altas devido a variação do dólar. No subgrupo dos alimentos in natura e semi-elaborados (7,13%) foram observadas taxas bastante elevadas na carne bovina (9,46%) e no frango (6,12%), que estão ligados de certa forma ao mercado exportador. No entanto, a maior taxa coube às hortifrutas com um aumento de 10,65%, e este comportamento não está vinculado ao mercado externo. No subgrupo da indústria alimentícia (4,05%), os produtos que maiores altas apresentaram, em sua maioria, sofreram reajustes devido a alta do dólar, como ocorreu com os derivados do trigo a exemplo das massas, biscoitos e farinhas (3,36%) e dos panificados (4,12%). Outros bens diretamente ligados ao comércio externo também sofreram reajustes como: café (16,37%) e óleos e azeites (10,09%).

Dentre os grupos com taxa negativa ou pequena destacam-se o Vestuário (-1,28%), com queda em ambos os subgrupos, roupas (-1,21%) e calçados (-1,43%) e a Habitação com pequena variação (0,24%) e que foi beneficiada, principalmente, pela redução ocorrida na locação de imóveis (-1,02%), observada neste início de ano.

Considerações Finais
Em fevereiro já foi possível captar alguns efeitos causados nos preços do mercado interno devido à desvalorização cambial.

Alguns bens podem ter seus reajustes justificados por serem fortemente relacionados ao mercado externo. Para outros produtos, viáveis de exportação, cabe algum questio NAMEnto. O preço externo só deveria influenciar o interno se os empresários destas áreas tivessem capacidade de exportar toda a sua produção. Considerando-se que existem restrições de demanda externa, é questionável que os produtores possam exportar o quanto desejam, a ponto de permitir a prática de um único preço, quer seja para o mercado interno, quer para o externo.

Um terceiro grupo de produtos, que apresentaram reajustes acima da inflação, só tem com justificativa para os seus aumentos o oportunismo e a carona na onda do aumento do dólar.

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