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..... |
São Paulo, 6 de maio de 1999.
A taxa de 0,11% de inflação, calculada pelo DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos - para o conjunto das famílias residentes no município de São Paulo, surpreendeu. Este índice é 0,88 ponto percentual menor que o detectado em março (0,98%) e 0,08 ponto percentual inferior ao verificado em abril do ano passado, quando a inflação apurada foi de 0,19%.
Dentre os grupos e subgrupos que apresentaram maiores altas, destacam-se os Equipamentos Domésticos, a Saúde e o Vestuário, enquanto as menores variações ocorreram na Alimentação, Habitação e Educação e Leitura (tabela 1).
Tabela 1 - Maiores e menores taxas Abril 1999(em %)
|
Grupos e subgrupos
|
Maiores
|
Grupos e subgrupos
|
Menores
|
Equipamentos Domésticos
|
1,50
|
Alimentação
|
-0,96
|
. Eletrodomésticos
|
2,13
|
. Produtos in natura e semi-elaborados
|
-2,61
|
. Utensílios Domésticos
|
3,24
|
. Indústria da Alimentação
|
0,46
|
. Móveis
|
-0,48
|
. Fora do Domicílio
|
-0,24
|
. Rouparia
|
0,78
|
Habitação
|
0,04
|
Saúde
|
1,15
|
. Locação, Impostos e Condomínio
|
-0,89
|
. Assistência Médica
|
0,72
|
. Operação do Domicílio
|
0,68
|
. Medicamentos e Produtos Farmacêuticos
|
2,32
|
. Conservação do Domicílio
|
0,26
|
Vestuário
|
0,63
|
Educação e Leitura
|
0,14
|
. Roupas
|
0,91
|
. Educação
|
0,11
|
. Calçados
|
-0,08
|
. Leitura
|
0,54
|
Os gastos com Equipamentos Domésticos subiram 1,50%, com as maiores taxas verificadas nos subgrupos eletrodomésticos (2,13%) e utensílios domésticos (3,24%). No caso dos eletrodomésticos, destacam-se os reajustes ocorridos em aparelhos de pequeno porte (3,20%) e em eletrônicos (2,89%), em especial a TV (5,22%). Os aumentos dos utensilios domésticos tiveram origem nos bens de cozinha (4,49%), principalmente nos produtos cujo insumo principal é o alumínio.
O segundo grupo que mais pressionou a inflação, em abril, foi a Saúde (1,15%), tendo como origem os reajustes dos medicamentos (2,35%), cujos produtos variaram entre 2% e 3%, com altas marcantes em alguns remédios de uso contínuo, tais como os para diabetes (6,72%), dermatológicos (4,99%), ginecológicos (3,88%) e anticoncepcionais (3,85%).
Após cinco meses de queda em seus preços, o Vestuário registrou taxa positiva de 0,62%, em decorrência da elevação verificada apenas no item roupas (0,91%), uma vez que os calçados apresentaram ligeira queda (-0,08%).
Dentre os grupos com taxas negativas, o comportamento mais significativo foi apurado na Alimentação (-0,96%). O destaque foi a retração verificada nos produtos in natura e semi-elaborados (-2,61%), em especial nas hortifrutas (-3,16%), que registraram acentuada queda nas frutas (-6,50%) e hortaliças (-3,92%). Os demais itens apresentaram variações próximas a zero, com exceção dos legumes (7,57%), devido ao extraordinário aumento ocorrido no preço do tomate (15,81%). Queda acentuada ocorreu nos grãos (-9,00%), tanto no arroz (-5,94%) como no feijão (-18,38%).
Nos produtos da indústria da alimentação (0,46%), os aumentos ocorreram principalmente entre os derivados do trigo, em especial no item massas, biscoitos e farinhas (2,59%) e nas bebidas alcoólicas (3,60%), com destaque para a cerveja (4,14%).
No grupo Habitação (0,04%), com taxa próxima a zero, observou-se reajuste no item operação do domicílio (0,68%), devido ao aumento no gás de butijão (7,28%), compensado pela queda na locação de imóveis (-1,38%).
Índices por Estrato
Em abril, as taxas de inflação tiveram comportamento bastante diferenciado segundo as faixas de rendimento familiar, com queda de 0,06% para as famílias de menor poder aquisitivo (renda média de R$ 377,49), incluídas no estrato 1, e elevação de 0,18% para as de maior renda (rendimento médio de R$ 2.792,90), englobadas no estrato 3 (tabela 2).
Tabela 2 - Índices por estrato Março e abril de 1999
|
Custo de Vida no Município de São Paulo
|
Índices
|
mar/99
|
abr/99
|
Diferença
|
Geral
|
0,98%
|
0,11%
|
-0,88pp
|
Estrato 1
|
1,03%
|
-0,06%
|
-1,09pp
|
Estrato 2
|
1,05%
|
0,04%
|
-1,01pp
|
Estrato 3
|
0,96%
|
0,18%
|
-0,77pp
|
pp = ponto percentual
A tabela 2 mostra ainda que as maiores diferenças entre as taxas apuradas nos dois últimos meses ocorreram para as famílias do estrato 1 (-1,09 pp) e do estrato 2 (-1,01pp), no qual estão incluídas aquelas com nível de rendimento intermediário, equivalente, em média, a R$ 934,10.
As diferenças de taxas por estrato de renda têm origem na estrutura dos gastos familiares. As quedas nas taxas dos produtos alimentícios reduziram os índices em 0,47pp para o estrato 1, 0,36pp para o estrato 2 e apenas 0,16pp para o terceiro estrato (tabela 3 e gráfico 2).
Constata-se que a queda no grupo Alimentação foi o fator discriminante nos índices de inflação para as diversas famílias paulistanas. Os demais grupos também afetaram as taxas, porém não foram os grandes responsáveis pelas diferenças marcantes entre estas.
Tabela 3 Taxas e contribuições por estrato de renda Abril de 1999
Grupos de Gasto
|
Geral
|
Estrato 1
|
Estrato 2
|
Estrato 3
|
|
Taxa
(%)
|
Contribuição
(pp)
|
Taxa
(%)
|
Contribuição (pp)
|
Taxa
(%)
|
Contribuição (pp)
|
Taxa
(%)
|
Contribuição (pp)
|
Total
|
0,11
|
0,11
|
-0,06
|
-0,06
|
0,04
|
0,04
|
0,18
|
0,18
|
Alimentação
|
-0,96
|
-0,26
|
-1,33
|
-0,47
|
-1,16
|
-0,36
|
-0,69
|
-0,16
|
Habitação
|
0,04
|
0,01
|
0,29
|
0,08
|
0,10
|
0,02
|
-0,05
|
-0,01
|
Equipamentos Domésticos
|
1,50
|
0,07
|
1,18
|
0,05
|
1,56
|
0,09
|
1,52
|
0,07
|
Transportes
|
0,21
|
0,03
|
0,33
|
0,03
|
0,17
|
0,02
|
0,22
|
0,03
|
Vestuário
|
0,63
|
0,03
|
0,48
|
0,03
|
0,83
|
0,05
|
0,62
|
0,03
|
Educação e Leitura
|
0,14
|
0,01
|
0,19
|
0,01
|
0,25
|
0,01
|
0,12
|
0,01
|
Saúde
|
1,15
|
0,12
|
1,62
|
0,14
|
1,44
|
0,12
|
0,98
|
0,11
|
Recreação
|
2,02
|
0,03
|
1,56
|
0,01
|
1,57
|
0,02
|
2,18
|
0,04
|
Despesas Pessoais
|
1,51
|
0,06
|
1,47
|
0,07
|
1,46
|
0,06
|
1,56
|
0,05
|
Despesas Diversas
|
-0,39
|
0,00
|
-0,41
|
0,00
|
-0,40
|
0,00
|
-0,38
|
0,00
|
pp = ponto percentual
Índices Acumulados
Nos últimos doze meses - de maio de 1998 a abril de 1997 -, o ICV-DIEESE acumula uma alta de 2,76%, enquanto apenas nos quatro primeiros meses de 1999 atingiu 3,67%. Este comportamento revela que nos últimos oito meses de 1998 a taxa foi negativa (-0,88%).
A diferença entre a taxa de 1999 e a anual tem origem na desvalorização do real, ocorrida a partir da segunda quinzena de janeiro, e que pressionou os índices de fevereiro (1,15%) e de março (0,98%).
Dada a importância da taxa de 1999, devido às mudanças na política econômica, a ênfase desta análise será relativa às taxas dos grupos e subgrupos deste ano (tabela 4).
Tabela 4 - Taxas no ano e anual dos grupos e subgrupos(em %)
Grupos e Subgrupos
|
No Ano
|
Anual
|
Grupos e Subgrupos
|
No Ano
|
Anual
|
|
01/99 - 04/99
|
05/98 - 04/99
|
01/99 - 04/99
|
05/98 - 04/99
|
03.Equipamentos Domésticos
|
6,90
|
2,64
|
05.Vestuário
|
-3,21
|
-7,83
|
0301.Eletrodomésticos
|
8,70
|
3,40
|
0501.Roupas
|
-3,56
|
-9,03
|
0302.Utensílios
|
5,76
|
1,30
|
0502.Calçados
|
-2,92
|
-5,54
|
0303.Móveis
|
4,91
|
3,47
|
02.Habitação
|
1,37
|
1,12
|
0304.Rouparia
|
2,28
|
-3,65
|
0201.Locação,Imp.e Cond.
|
-0,73
|
-3,59
|
04.Transporte
|
6,12
|
1,93
|
0202.Operação do Domicílio
|
2,58
|
3,79
|
0401.Individual
|
4,71
|
-1,71
|
0203.Conservação
|
2,80
|
5,09
|
0402.Coletivo
|
9,37
|
10,95
|
09.Despesas Pessoais
|
3,04
|
3,51
|
01.Alimentação
|
5,05
|
3,81
|
0901.Higiene e Beleza
|
4,89
|
5,67
|
0101.Prod.in-natura e semi-elab.
|
4,94
|
5,41
|
0902.Fumo e Acessórios
|
0,09
|
0,09
|
0102.Indústria da Alimentação
|
7,94
|
4,12
|
06.Educação e Leitura
|
3,96
|
5,14
|
0103.Alim. Fora do Domicílio
|
0,12
|
0,16
|
0601.Educação
|
3,97
|
5,27
|
07.Saúde
|
4,82
|
9,99
|
0602.Leitura
|
3,85
|
3,45
|
0701.Assistência Médica
|
4,39
|
8,78
|
|
|
|
0703.Medicamentos e Prod.Farm.
|
6,06
|
13,47
|
Pela tabela 4, os grupos que maiores aumentos apresentaram este ano foram os Equipamentos Domésticos (6,90%), Transportes (6,12%), Alimentação (5,05%) e Saúde (4,82%). Com taxas negativas ou menores estão o Vestuário (-3,21%), Habitação (1,37%), Despesas Pessoais (3,04%) e Educação e Leitura (3,97%).
Em todos os casos em que as taxas do corrente ano são maiores que as anuais, ocorreu deflação, nos últimos oito meses de 1998, nestes grupos e subgrupos.
Caso se admita que não haverá nenhum fato novo que reverta as tendências inflacionárias, é de se esperar, nos próximos oito meses, deflação da ordem de 0,88%.
Os índices acumulados por estrato de renda revelam que nos últimos doze meses as famílias do estrato 1 (3,36%) foram as mais prejudicadas e neste ano as do estrato 2 (4,09%), conforme dados da tabela 5.
Tabela 5 - Índices acumulados por estrato de renda (em %)
|
Indices por Estrato
|
Mensal
|
No Ano
|
Anual
|
abr/99
|
01/99 - 04/99
|
05/98 - 04/99
|
Total
|
0,11
|
3,67
|
2,76
|
Estrato 1
|
-0,06
|
3,84
|
3,36
|
Estrato 2
|
0,04
|
4,09
|
3,09
|
Estrato 3
|
0,18
|
3,47
|
2,45
|
Estas diferenças entre os resultados por estrato de renda revelam que as famílias de menores rendas são mais sensíveis aos aumentos dos produtos alimentícios e do transporte coletivo, que aumentaram acima do índice geral, tanto neste ano como nos últimos doze meses.
Efeito da desvalorização cambial nos preços internos
A desvalorização do Real, a partir da segunda quinzena de janeiro, que chegou a atingir R$ 2,20 por dólar, retornando ao patamar de R$ 1,70 por dólar em abril, deu margem a muitas especulações sobre os impactos destes aumentos nos preços do mercado interno.
Como as reações nas cotações de mercado não foram imediatas, esta análise contempla os efeitos nos preços a partir de fevereiro.
Para tanto, os itens do ICV foram agregados em cinco grupos, segundo a relação dos bens com o mercado cambial :
Sem relação - refere-se a bens e produtos que não têm nenhuma relação com o mercado externo, como os serviços: médicos, escolares, pessoais, domésticos etc. e bens como: hortaliças, legumes, frutas, peixes, produtos de higiene e beleza, produtos de limpeza doméstica etc.;
Bens ou insumos importados - compreende bens importados como: arroz, trigo, azeite, bacalhau etc. e bens com fortes componentes importados na sua fabricação como é o caso dos derivados de trigo, os remédios, derivados de petróleo etc.;
Exportáveis - neste grupo foram classificados todos os bens que têm preços cotados internacionalmente e portanto são viáveis de serem comercializados no mercado externo, tais como: carnes bovina e de frango, café e soja, com reflexo inter NAMEnte no óleo e na margarina;
Produtos internos que sofrem concorrência externa - produtos que são produzidos inter NAMEnte, mas que nos últimos tempos vinham sofrendo forte concorrência dos importados, estão classificados neste grupo, como é o caso dos eletrodomésticos, brinquedos, vestuário e veículos;
Administrados pelo governo - os serviços públicos, os impostos, as tarifas do transporte coletivo e o gás de butijão fazem parte deste grupo.
Com este arranjo foi possível classificar nestes grupos aqueles produtos fortemente relacionados ao comércio internacional, portanto sensíveis à desvalorização cambial, dando-se ênfase na análise dos bens e/ou insumos importados, exportáveis e os que sofrem concorrência internacional, que representam cerca de 27% da composição do ICV-DIEESE.
Nestes últimos três meses, os importados, com taxa acumulada de 7,74%, e os exportáveis (6,73%) foram os grupos que mais subiram. Porém uma análise das taxas mensais (tabela 6 e gráfico 3) mostra uma desaceleração dos aumentos dos importados e uma diminuição marcante nas taxas dos bens de exportação, revelando as dificuldades de exportação e a pouca capacidade de repassar os aumentos de custos dos importados.
Os bens de produção interna, que deixaram de sofrer forte concorrência dos importados, foram reajustados neste período em 1,48%, chegando a apontar deflação em fevereiro (-0,54%).
Tabela 6 - Impacto da desvalorização do Real Fevereiro a abril de 1999(em %)
Grupos
|
Variações
|
|
Fevereiro
|
Março
|
Abril
|
Acumulado
|
Sem relação
|
0,50
|
0,87
|
-0,20
|
1,17
|
Importados
|
2,58
|
3,20
|
1,77
|
7,74
|
Exportaveis
|
6,66
|
2,42
|
-2,30
|
6,73
|
Concorrencia externa
|
0,99
|
-0,54
|
1,04
|
1,48
|
Governo
|
0,93
|
0,34
|
0,43
|
1,70
|
Total
|
1,14
|
0,98
|
0,11
|
2,24
|
O que se pode inferir destes resultados é que o impacto da desvalorização do Real de 40% foi absorvido com uma inflação de 2,24%.
Isto se deve à profunda recessão pela qual a economia está passando, com alta taxa de desemprego que chegou, em março, a 19,9% - segundo os dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego, realizada mensalmente na Grande São Paulo pelo DIEESE e a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE) -, e diminuição da massa de rendimento dos ocupados (-3,2% em fevereiro), resultando em queda da demanda agregada.
As autoridades gover NAMEntais e o Fundo Monetário Internacional (FMI) admitiram uma inflação aceitável de até 17% no ano de 1999 e uma taxa anualizada em 6% no fim do ano.
Está aberta, portanto, a possibilidade de relaxar alguns mecanismos de política monetária, com incentivos à produção, créditos e queda na taxa de juros, contribuindo para a recuperação da atividade econômica, com a correspondente queda no desemprego e elevação da renda agregada.
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