São Paulo, 03 de agosto de 1999.
Em julho, as altas dos preços de serviços públicos e dos combustíveis foram determinantes para que o Índice do Custo de Vida (ICV), calculado pelo DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos -, registrasse uma taxa de 1,19%. Este aumento representou uma diferença de 0,85 ponto percentual (pp) em relação à taxa de 0,34%, apurada em junho.
Os Transportes - devido à elevação ocorrida para o transporte individual - e a Habitação, pressionada pela operação do domicícilio, refletiram a majoração dos preços públicos. Os grupos e subgrupos que maiores e menores variações de preço apresentaram constam na tabela 1 e no gráfico 1.
Tabela 1 - Índice do Custo de Vida (ICV/DIEESE) Grupos e subgrupos com maiores e menores taxas Município de São Paulo - julho de 1999(em %)
Itens com maiores taxas
Itens com menores taxas
Transportes
4,81
Vestuário
-0,33
. Individual
6,54
. Roupas
-0,40
. Coletivo
0,97
. Calçados
-0,26
Habitação
2,04
Alimentação
-0,47
. Locação, Impostos e condomínio
1,16
. In natura e semi-elaborados
-1,14
. Operação do domicílio
3,26
. Indústria da alimentação
-0,03
. Conservação do domicílio
-0,22
. Alimentação fora do domicílio
0,00
Saúde
1,20
Equipamentos Domésticos
-0,05
. Assistência médica
0,89
. Eletrodomésticos
0,10
. Medicamentos e produtos farmacêuticos
2,00
. Utensílios
-0,43
. Móveis
0,19
. Rouparia
-1,41
Fonte: DIEESE.
No grupo Transportes (4,81%), o maior reajuste foi detectado no transporte individual (6,54%), conseqüência dos aumentos dos combustíveis (14,02%), sendo 13,36% na gasolina, 17,14% no álcool e 8,20% no diesel.
Os aumentos nas tarifas de água/esgoto (11,62 %), eletricidade (5,92%) e gás de botijão (8,49%) tiveram forte impacto no item serviços públicos (5,02%), influenciando o índice do grupo Habitação (2,04%), principalmente no subgrupo operação do domicílio (3,26%).
No grupo Saúde (1,20%) os grandes responsáveis pela taxa foram os medicamentos e produtos farmacêuticos (2,00%) e os seguros e convênios (1,48%).
Dentre os grupos que contribuíram para reduzir a taxa encontra-se o Vestuário, com queda de 0,33%, em função do item roupas (-0,40%), seguido pelos calçados (-0,26%).
No mesmo sentido comportou-se o grupo Equipamentos Domésticos (-0,05%), que teve queda nos subgrupos rouparia (-1,41%) e utensílios domésticos (-0,43%), compensada pela alta nos móveis (0,19%) e eletrodomésticos (0,10%).
A diminuição nos preços dos Alimentos (-0,47%) deveu-se principalmente aos produtos in natura e semi-elaborados (-1,14%) especialmente nos itens: raízes e tubérculos (-6,21%), grãos (-4,34%), hortaliças (-4,23%), peixes e frutos do mar (-3,78%) e aves e ovos (-1.23%).
Gráfico 1 - Índice do Custo de Vida (ICV/DIEESE)
Variação de preços por Grupos do ICV
Município de São Paulo - julho de 1999
Fonte: DIEESE.
Índices por estrato de renda
Em julho, os índices por estrato de renda registraram taxa similar para as famílias de maior rendimento (renda média de R$ 2.792,90), incluídas no estrato 3, e as de renda intermediária (média de R$ 934,17), englobadas no estrato 2, ambas com 1,17%. As de menor poder aquisitivo (média de R$ 377,49), pertencentes ao estrato 1, ficaram com a maior taxa, de 1,23%. Como em junho o menor índice registrou-se para o estrato 1 (0,25%), estas famílias sofreram o maior impacto da variação de preços quando comparados aos do mês anterior, com 0,99 pp (tabela 2 e gráfico 2). Para o estrato 2, o acréscimo foi de 0,90 pp, enquanto o estrato 3 teve aumento de 0,77 pp.
Tabela 2 - Índice do Custo de Vida (ICV/DIEESE) Índices por estrato - Município de São Paulo - jun-jul/99
Indices
Jun/99 (em %)
Jul/99 (em %)
Diferença Jul-jun
Geral
0,34
1,19
0,85
Estrato 1
0,25
1,23
0,99
Estrato 2
0,27
1,17
0,90
Estrato 3
0,39
1,17
0,77
pp=ponto percentual.
Fonte: DIEESE.
A análise das contribuições dos grupos de despesas, classificados de acordo com as maiores e menores variações de preços, em julho, revela os efeitos diferenciados destes no comportamento dos índices dos estratos.
No estrato 1, correspondente a um terço das famílias com menor renda familiar, a taxa de 1,23% é decomposta em itens com variação positiva, que contribuíram 1,44% para o seu índice total, ressaltando-se as contribuições dos grupos Habitação (0,91%) e Transportes (0,39%). Os grupos com menores variações contribuíram negativamente em 0,21%, ressaltando-se a influência da Alimentação, que representa quase a totalidade deste impacto.
No estrato 3, correspondente ao terço das familias com maior renda, com taxa de inflação de 1,17%, os grupos que apresentaram taxas positivas contribuíram 1,26%, fortemente influenciados pelo impacto do grupo Transportes (0,77%), seguido por Habitação (0,36%). Os ítens com queda contribuíram negativamente em 0,11%, principalmente devido à Alimentação (-0,09%)
Tabela 3 - Índice do Custo de Vida (ICV/DIEESE) Taxas e contribuições por estratos de renda e grupos de despesa Município de São Paulo - julho de 1999
Grupos
Geral
Estrato 1
Estrato 2
Estrato 3
Taxa
(%)
Contribuição
(pp)
Taxa
(%)
Contribuição
(pp)
Taxa
(%)
Contribuição
(pp)
Taxa
(%)
Contribuição
(pp)
Total
1,19
1,19
1,23
1,23
1,17
1,17
1,17
1,17
Contribuições positivas (inflação)
1,32
1,44
1,35
1,26
Transportes
4,81
0,68
4,12
0,39
4,38
0,58
4,99
0,77
Habitação
2,04
0,51
3,37
0,91
2,55
0,65
1,45
0,36
Saúde
1,20
0,13
1,56
0,14
1,42
0,13
1,06
0,13
Despesas diversas
1,46
0,00
1,53
0,00
1,51
0,00
1,42
0,00
Despesas pessoais
0,14
0,01
0,12
0,01
0,06
0,00
0,19
0,01
Recreação
0,44
0,01
0,07
0,00
0,63
0,01
0,40
0,01
Contribuições negativas (deflação)
-0,14
-0,21
-0,20
-0,11
Alimentação
-0,47
-0,12
-0,60
-0,21
-0,55
-0,17
-0,39
-0,09
Vestuário
-0,33
-0,02
-0,13
-0,01
-0,48
-0,03
-0,37
-0,02
Equipamentos domésticos
-0,05
0,00
0,05
0,00
-0,16
-0,01
-0,01
0,00
Educação e leitura
-0,02
0,00
-0,04
0,00
-0,02
0,00
-0,01
0,00
Fonte: DIEESE.
Gráfico 2 - Índice do Custo de Vida (ICV/DIEESE)
Contribuição dos grupos de despesa por estrato de renda
Município de São Paulo - julho de 1999
Fonte: DIEESE.
Taxas Acumuladas
O ICV-DIEESE, em 1999, já acumula uma alta de 5,48%, com diferenças marcantes nas taxas de seus grupos e subgrupos, como mostra a tabela 4.
Tabela 4 - Índice do Custo de Vida (ICV/DIEESE) Variações acumuladas anuais e no ano de 1999 Município de São Paulo - julho de 1999(em %)
Grupos e subgrupos
Maiores taxas
Grupos e Subgrupos
Menores taxas
No ano 01/99 - 07/99
Anual 08/98 - 07/99
No ano 01/99 - 07/99
Anual 08/98 - 07/99
Transportes
12,27
9,45
Vestuário
-1,54
-5,66
.Individual
13,07
8,73
.Roupas
-1,67
-6,65
.Coletivo
10,42
11,17
.Calçados
-1,20
-3,75
Saúde
8,93
10,75
Alimentação
2,35
1,81
.Assistência médica
6,97
8,19
. In natura e semi-elaborados
-0,95
0,52
.Medicamentos e produtos farmacêuticos
14,25
17,86
.Indústria. da alimentação
6,90
4,05
.Fora do domicílio
0,59
0,16
Equipamentos domésticos
7,82
2,76
Recreação
5,18
3,22
.Eletrodomésticos
10,00
2,69
.Produtos
5,95
3,19
.Utensílios
4,44
-0,14
.Serviços
3,78
3,26
.Móveis
6,29
6,18
.Rouparia
2,44
-3,46
Habitação
5,72
4,95
Educação e leitura
3,95
4,42
.Locação, impostos e condomínios
1,28
-1,55
.Educação
4,07
4,57
.Operação
9,87
10,70
.Leitura
2,34
2,43
.Conservação
2,99
2,79
Fonte: DIEESE.
O aumento no grupo Transportes (12,27%) teve como origem o transporte individual (13,07%), principalmente no item combustível (24,84%), devido à gasolina (35,62%) e ao diesel (29,49%). No transporte coletivo (10,42%), o impacto partiu do aumento das tarifas dos ônibus municipais (15,00%) .
Na Saúde (8,93%), destacam-se as altas nos medicamentos e produtos farmacêuticos (14,25%) e no subgrupo assistência médica (6,97%). Chama atenção a taxa observada no seguro e convênios (10,23%).
O grupo Equipamentos Domésticos (7,82%) apresentou uma discrepância acentuada entre as taxas de seus subgrupos, com aumentos que variaram de 2,44% na rouparia a 10,00% nos eletrodomésticos, este último conseqüência da desvalorização do real, em janeiro de 1999.
Os preços dos serviços públicos incluídos na operação do domicílio (9,87%) pressionaram a taxa do grupo Habitação (5,72%). Cabe salientar os reajustes nas tarifas de eletricidade (17,60%), água/esgoto (11,62%) e gás de botijão (38,09%).
Dentre os grupos que neste ano apresentaram deflação ou taxa inferior ao índice geral, temos o Vestuário (-1,54%), Alimentação (2,35%) e Educação e Leitura (3,95%).
A queda do Vestuário foi observada principalmente no primeiro trimestre deste ano. A seguir, houve uma pequena recuperação nos preços e, neste mês, voltou a registrar retração (-0,33%).
Apesar da baixa taxa no grupo Alimentação (2,35%), notam-se diferenças marcantes entre seus subgrupos, com queda nos produtos in natura e semi-elaborados (-0,95%) e alta nos industrializados (6,90%). Mesmo entre estes produtos, alguns apresentaram taxas elevadas, como os legumes (22,40%), peixes e frutos do mar (20,22%) e carne bovina (8,10%), compensados pelas quedas verificadas nos grãos (-21,68%), em especial o feijão (-41,35%), raízes e tubérculos (-9,95%) e frutas (-5,81%).
Nos últimos doze meses a inflação acumula uma taxa de 4,46%. Dos dez grupos pesquisados pelo ICV-DIEESE, seis apresentaram taxas anuais inferiores às observadas neste ano, refletindo de certa forma um realinhamento de preços em 1999, fenômeno este observado nos seguintes grupos: Vestuário (-5,66%), Equipamentos Domésticos (2,76%), Alimentação (1,81%), Recreação (3,22%), Habitação (4,95%) e Transportes (9,45%).
Tabela 5 - Índice do Custo de Vida (ICV/DIEESE) Taxas mensais dos últimos doze meses - Município de São Paulo - julho de 1999 (em %)
Mês/ano
Taxas mensais
Ago/98
-0,89
Set/98
-0,11
Out/98
0,21
Nov/98
-0,34
Dez/98
0,15
Jan/99
1,38
Fev/99
1,15
Mar/99
0,98
Abr/99
0,11
Mai/99
0,22
Jun/99
0,34
Jul/99
1,19
Fonte: DIEESE.
Gráfico 3 - Índice do Custo de Vida (ICV/DIEESE)
Taxas mensais dos últimos doze meses Município de São Paulo - julho de 1999
Fonte: DIEESE.
A estabilidade dos preços, verificada no segundo semestre de 1998, foi interrompida no primeiro trimestre deste ano, devido ao reajuste nos preços administrados pelo governo e do ajuste cambial, cujos efeitos foram absorvidos até março. À relativa estabilidade no segundo trimestre, segue-se a aceleração inflacionária em julho, conseqüência direta dos reajustes nos preços públicos.
Os índices acumulados por estrato de renda (tabela 6) apontam uma maior inflação neste ano para o estrato 2 (5,73%), seguido do estrato 1 (5,49%) e com menor taxa o estrato 3 (5,36%).
Tabela 6 - Índice do Custo de Vida (ICV/DIEESE) Índices acumulados por estrato Município de São Paulo - julho de 1999(em %)
Estratos de Renda Familiar
Em 1999
Últimos 12 meses
Índice Geral
5,48
4,46
Estrato 1
5,49
4,50
Estrato 2
5,73
4,59
Estrato 3
5,36
4,35
Fonte: DIEESE.
Recessão versus Inflação
Dado o quadro recessivo em que vive a sociedade, com taxa de desemprego de 19,9%, em junho, e queda no rendimento médio dos ocupados de 6,4%, no período de junho de 1998 a maio de 1999, a conseqüência é a queda na demanda agregada. Porém, alguns setores tiveram condições de praticar aumentos bastante expressivos em seus preços, neste ano.
Para detectar os aumentos de alguns setores, os itens do ICV-DIEESE foram agregados em três grandes grupos:
públicos e/ou administrados: Impostos, eletricidade, água, gás de cozinha, telefone, combustível e transporte coletivo;
oligopolizados: seguros e convênios e medicamentos e produtos farmacêuticos;
concorrenciais: todos os demais itens do ICV-DIEESE.
Foram calculados (tabela 7) os reajustes de preços desses três grupos para o ano de 1999.
Tabela 7 - Índice do Custo de Vida (ICV/DIEESE) Ponderação e variações dos ítens reagrupados Município de São Paulo - julho de 1999(em %)
Reagrupamento
Peso dez/98
Taxa
em 1999
Públicos/Administrados
17,80
13,62
Oligopolizados
7,74
11,74
Concorrênciais
74,46
2,89
Total Global
100,00
5,48
Fonte: DIEESE.
Os maiores aumentos foram observados nos preços públicos e/ou administrados pelo governo (13,62%). Como são bens e serviços de primeira necessidade, dificilmente pode ser substituído ou reduzido o seu consumo, portanto esses reajustes têm como conseqüência uma transferência de demanda dos setores concorrenciais para aqueles do governo ou por ele administrado.
O segundo grupo, os oligopolizados (11,74%), também apresenta como característica conter bens e serviços de primeira necessidade e ofertados por um pequeno grupo de empresas. Desta forma, as empresas deste grupo tiveram condições de reajustar os seus preços, sem grande impacto na demanda de seus produtos.
As empresas concorrenciais (2,89%), apesar da desvalorização do real, não tiveram condições de repassar seus acréscimos de custos ao consumidor final, em conseqüência da forte retração da demanda, agravada pelos aumentos observados nos dois grupos acima.
A taxa acumulada de 5,48%, em 1999, não reflete estabilidade nos preços. Discrepâncias nas taxas dos grupos apresentados na tabela 7 revelam uma acentuada alteração nos preços relativos dos produtos e serviços, privilegiando aqueles com poder de reajustar seus preços às custas do setores mais concorrenciais, sensíveis à retração da demanda.
Os aumentos anunciados para agosto no transporte coletivo, combustíveis e energia, deverão contribuir com 0,67 pp no cálculo do ICV do próximo mês.
DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Económicos