PREÇOS ESTÁVEIS E DESEMPREGO CADA VEZ MAIOR: BALANÇO DO REAL
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A inflação é reconhecidamente um mecanismo concentrador de renda. Até junho de 1994, as altas taxas inflacionarias verificadas no Brasil corroíam os ganhos de toda a população, em particular daqueles de menor poder aquisitivo. Logo, como o Plano Real conseguiu reduzi-la a patamares civilizados, há um enorme consenso no que diz respeito aos aspectos positivos da estabilização monetária.
Entretanto, passados quatro anos, o Brasil ainda convive com um grande nó econômico, que relaciona a necessidade de articulação de estabilização monetária com desenvolvimento econômico e social sustentável.
Desde a implantação do Real, a inflação acumulada fica em torno de 70% e 80%, bem inferior aos mais de 1.000% a que as taxas anuais chegaram até antes de 1994. No entanto, o desemprego subiu de um patamar de 14% para próximo a 19% ao mês, registrando sucessivos recordes mensais, segundo a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), realizada na Grande São Paulo desde 1985 pelo DIEESE e Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade). Além disso, o produto interno bruto nacional convive com taxas de crescimento consideradas por muitos como sendo medíocres.
Estes números confirmam a idéia de que estabilidade monetária é diferente de estabilidade econômica.
A estabilização da moeda concretizada no Real foi resultado da combinação do controle monetário, da desindexação dos contratos e da abertura econômica. Estes três fatores fundamentais consolidaram um quadro cujo câmbio (real/dólar) permaneceu valorizado e os juros foram elevados a taxas bastante expressivas.
Os juros altos fazem os capitais externos migrarem para o Brasil, elevando nossas reservas internacionais. Ao mesmo tempo, porém, prejudicam a possibilidade de investimentos produtivos e contribuem para a deterioração das contas públicas.
A abertura econômica contribui para um maior nível de concorrência na economia, mantém os chamados preços concorrenciais estabilizados; entretanto, as indústrias nacionais deixam de produzir uma série de itens, o que contribui para a elevação das taxas de desemprego.
A desindexação aponta para uma perspectiva de livre negociação em todos os campos da economia, mas verifica-se que os segmentos menos organizados da sociedade sentem na pele os seus efeitos. Especialmente os trabalhadores, na medida em que o país ainda está longe de um cenário em que a liberdade de organização nos locais de trabalho esteja ple NAMEnte garantida.
Logo, percebe-se que o Plano Real conseguiu estabilizar a moeda, mas o movimento econômico ficou em permanente instabilidade.
O que se espera, a partir de agora, é que haja condições para que se possa encontrar saídas para os atuais entraves.
A abertura econômica, que possui um lado comercial e outro especulativo, constituiu um importante pilar no processo de estabilização, mas é vista hoje como um perigoso dilema, seja porque a balança comercial permanece em grave desequilíbrio, seja porque os capitais internacionais abalaram regiões importantes como a Ásia. Nada indica que, se necessário, haverá algum grau de clemência da parte dos grandes especuladores internacionais para com o Brasil.
Os juros, ainda que venham sendo reduzidos nos meses recentes, ainda estão há anos-luz dos níveis internacionais, o que torna muito difícil a elevação dos patamares de investimentos. O país saltou de uma taxa de investimento, em 1994, de 14% para cerca de 18%, em 1997, mas esta ainda é considerada bastante baixa.
Quanto ao câmbio, o que se percebe é que os ajustes realizados em novembro do ano passado, quando da crise asiática, ainda são insuficientes.
Mais do que nunca fica evidente que há uma série de problemas estruturais na economia brasileira e parece evidente que a luta contra a inflação os colocava como questões secundárias.
DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Económicos