Não há dúvidas: o Plano Real interrompeu um longo processo de hiperinflação, resgatando a moeda nacional e reintegrando a trindade monetária, suas funções de meio de troca, reserva de valor e unidade de medida, perdidas durante décadas num emaranhado de índices de preços, títulos públicos, dólares, ouro. Um sucesso, enfim, enquanto política de estabilização monetária. A sociedade brasileira, cansada de não ter moeda, celebrou sua ressurreição e premiou generosamente os responsáveis pela proeza.
Mas já se vão três anos e as pessoas nem sequer se lembram do nome da última moeda pré-real e, como prova do sucesso da estabilização, já se habituaram ao tempo moroso das economias sem preços em disparada, em comparação à correria, ao desatino de se defender a renda corroída a cada minuto contra uma inflação desenfreada, como um elefante enfurecido solto no circo. Não é preciso correr ao banco para fazer aquela aplicação do salário de números astronômicos e poder de compra etéreo, ou o consumo antecipado dos próximos dois meses. Com o retorno da moeda, volta uma quietude, uma placidez ausente por milênios, uma estranha certeza de que o futuro não se esvanece a cada instante, que o fruto de nosso trabalho não é uma trama que se desmancha todas as noites, para compor o novelo de um assaltante fugidio e esquivo.
A inflação desmorona progressivamente, ano após ano, já se aproximando das taxas civilizadas. Mas há uma inquietude no ar, um sentimento de que o Real é rotina, já foi absorvido pelo cotidiano das massas. As pessoas se orgulham em contar os centavos, essa fração até agora desmoralizada, se refestelam com o milagre das prestações a perder de vista, que dão essa doce ilusão de que a vida melhorou, mas sentem um imenso desconforto, uma sensação de vacuidade, de ausência de perspectivas.
Parece que o país está mais afluente, mercadorias de todos os pontos do mundo nas prateleiras das lojas, nas bancas dos camelôs, nos anúncios dublados da TV, competindo e domando as nacionais. São os televisores de telas gigantes, os bichinhos virtuais, a camisa de seda, os carros com câmbio automático, o arroz vietnamita, o pêssego argentino, o vinho da Califórnia, a vodca russa... As pessoas gastam suas poupanças, empenham suas rendas em prestações eternas, compram o produto nacional e o estrangeiro. Percebem que a economia cresce, lentamente, mas cresce. Mas até quando?
A inflação em queda, a economia crescendo, o consumo afluente, por que, então, o desconforto? Será que essa inquietude é apenas o medo de que tudo não passa de uma ilusão, de uma miragem, do delírio do faminto que se embriagou com a sopa?
Todos percebemos que há limites para o que vem acontecendo. Que o país cresce, mas pouco para reduzir, de forma progressiva e consistente, o desemprego. O mesmo empenho em se reduzir a inflação falta, agora, para reduzir o desemprego. Todos percebem que a moeda vale mais, a moeda recuperou seu templo, mas que o emprego vale cada vez menos, para os governos, para os formuladores de políticas econômicas, para os apologistas desse admirável mundo novo.
De direito previsto na declaração universal dos direitos humanos, o emprego passa à demanda exótica de pessoas que insistem em não perceber que o mundo mudou, que os empregos existirão cada vez menos e que devem ser substituídos pelas "empreitadas", forma arcaica de relação de trabalho, agora recuperada pelos arautos da modernidade. Não há o que fazer, a não ser se submeter à inexorável determinação da lógica dos mercados, não mais conduzidos pela mão invisível da concorrência, mas agora pelas tenazes, nada sutis, das oligarquias financeiras mundiais, risivelmente reduzidas aos humores de operadores dos mercados de capitais.
Esses mesmos condutores do "livre mercado" financiam nosso consumo crescente, nossas importações vorazes, nossa âncora da estabilização. Mas atenção: não ousem quebrar os cânones da boa política econômica, pois não haverá mais jogo. Também não haverá mais jogo, quando a dívida externa crescer a ponto de fragilizar nossa credibilidade de devedor.
O mal-estar do Plano Real está na falta de perspectivas de crescimento sustentado e vigoroso da economia, nada desse crescimento débil e incerto, com poucos investimentos, dos últimos anos. É preciso algo mais do que crescer a 3% e 4% ao ano, de forma instável; é preciso um crescimento de 6% a 7%, e contínuo, para que o desemprego diminua e a renda possa ser melhor distribuída. Não é possível conviver por muito tempo com um déficit de transações correntes crescente, com o risco de termos de recuar da atual estratégia em desabalada correria, o que desorganizaria a economia, como ocorreu no México no final de 1994, e está para acontecer na Tailândia e em outras economias que ancoraram seus programas de estabilização nas moedas hegemônicas regionais.
DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Económicos