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DIEESE - Conjuntura - Fevereiro/95
A CRISE MEXICANA E A ECONOMIA DA AMÉRICA LATINA

..... No final de 1994, os investidores comemoravam o encerramento do ano diante de um clima de tranqüilidade do mercado internacional. Mas, por pouco tempo, pois a crise do México veio à tona por volta do dia 20 de dezembro, desencadeando uma fase de instabilidade econômica que se propagaria rapidamente para outros chamados "mercados emergentes" da América Latina, entre eles o Brasil e a Argentina.

O motivo apontado para o desencadeamento da vigorosa fuga de capitais no México a partir da segunda metade de dezembro foram as sucessivas revoltas ocorridas na região de Chiapas, agravando a crise política no país. Tal alegação, no entanto, é pouco para se compreender as verdadeiras razões da deflagração do processo de saída de recursos e seus desdobramentos sobre a economia mexicana.

Para se entender a crise mexicana é necessário, pois, ater-se às questões de fundo que definiram o novo perfil de funcio NAMEnto da economia do México, após o ajuste promovido a partir de meados da década de 80. Desde então, o país perseguiu a estabilização da economia apoiando-se basicamente na âncora cambial e na abertura comercial e financeira, que geraram déficits comerciais crescentes, financiados pelo aporte de capitais voláteis e especulativos.

Alguns dados comentados a seguir evidenciam a trajetória de risco que o México vinha trilhando, muito embora para os adeptos do ajuste neoliberal aquele país se apresentasse como uma espécie de modelo para os demais da América Latina.

Em 1987, as importações mexicanas totalizaram o equivalente a US$ 19 bilhões e saltaram, em 1993, para US$ 63 bilhões. Sem contar com uma sólida estrutura industrial que possibilitasse alavancar as exportações no rumo da integração competitiva, as vendas externas do México diminuíram em relação ao volume das importações. O resultado foi um déficit de US$ 24,5 bilhões na balança comercial, em 1994, o que tornou o país dependente de capitais externos em cerca de US$ 30 bilhões para conseguir fechar o balanço de pagamentos.

Com isso, embora perseguisse permanentemente o equilíbrio fiscal, a estratégia adotada pelo México de ajustar o déficit comercial pela conta de capitais mediante a maciça entrada de recursos externos acabou por elevar sobremaneira a dívida pública mexicana. De fato, o grande aporte de capitais estrangeiros atraídos pelo enorme diferencial de taxas de juro resultaram na elevação significativa da dívida de curto prazo daquele país com os credores estrangeiros. Em 1982, os passivos equivaliam a US$ 89 bilhões, alcançando hoje US$ 211 bilhões, dos quais US$ 87 bilhões dizem respeito à dívida pública.

Em decorrência desse quadro, em 1994, o governo mexicano desembolsou cerca de US$ 30 bilhões apenas para saldar as despesas com o serviço das dívidas interna e externa, o que acarretou um verdadeiro colapso em suas contas públicas.

A grave situação econômica a que chegou o México, aliada às conturbações políticas, resultaram num clima de desespero no mês dezembro, que culminou em uma forte desvalorização do peso - em apenas dez dias, a moeda mexicana perdeu cerca de 50% de seu valor.

A mudança da paridade de um dólar para 3,46 pesos (registrada antes da desvalorização de 15%, em 19 de dezembro) até atingir mais de seis pesos por dólar em poucos dias resultou na perda de US$ 10 bilhões para os investidores estrangeiros e mexicanos. Daí ocorreu a espetacular fuga de capitais noticiada pela imprensa. As reservas cambiais mexicanas, que atingiam no início de 1994 mais de US$ 25 bilhões, chegaram a somar no final de dezembro menos de US$ 6 bilhões, impedindo assim a desvalorização do peso até acumular perdas superiores a 60%.

Depois de privilegiar por muitos anos as importações, através da valorização do peso, o México passou a enfrentar, com minguadas reservas cambiais, a fuga de capitais de investidores que já não escondiam o descrédito no futuro da economia do país.

No dia 3 de janeiro deste ano, o presidente mexicano, Ernesto Zedilho, anunciou um plano de emergência para enfrentar a crise que provocou a desvalorização do peso. Entre o conjunto de medidas, acertado entre governo, empresários e trabalhadores, estão previstos cortes nos gastos públicos e contenção de preços públicos e salários (estes só teriam reajuste de 7% em 1995). No entanto, nos dias que se seguiram o que se viu foi a desconfiança dos investidores em relação à saúde da economia mexicana e da própria América Latina. O clima de insegurança resultou na queda generalizada das bolsas de valores, notadamente a do México mesmo, Argentina e Brasil.

Aliada àquelas medidas, o México passou a buscar a ajuda de organismos internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), e dos governos dos EUA, Canadá e Japão, com o objetivo de obter um fundo de recursos da ordem de US$ 18 bilhões - que pode alcançar até US$ 40 bilhões - e assim poder fazer frente à dívida de curto prazo e enfrentar os credores estrangeiros, especialmente os norte-americanos. Trata-se do maior socorro financeiro a ser concedido a um só país desde o Plano Marshall, após a II Guerra Mundial. Mesmo assim, embora necessário, não amenizará as dificuldades do tesouro mexicano, que hoje administra um dívida equivalente a 70% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

A percepção da gravidade da crise mexicana tem suscitado um grande debate sobre as possibilidade de o Brasil passar pelas mesmas dificuldades vividas hoje pelo México. De um lado, a alegação de que o Brasil não se compara ao México sustenta-se, principalmente, no volume de reservas cambiais dos dois países e na suposta superioridade do parque industrial brasileiro.

Desde de meados de 1992, o Brasil vem acumulando reservas cambiais - totalizavam um recorde de US$ 42 bilhões no início do ano - graças à política de juros altos, que atraíram para cá capitais externos, via bolsa de valores e aplicações financeiras. Contudo, as recentes reversões dos superávits comerciais em velocidade e dimensão surpreendentes serviram de alerta às autoridades econômicas e à sociedade brasileira sobre os problemas advindos do receituário seguido pelos países latino-americanos na tentativa de estabilizarem suas economias.

Antever todos os desdobramentos da crise mexicana para o Brasil, neste momento, parece ser uma tarefa impossível. Mas, preparar-se para os acontecimentos previsíveis de um caminho problemático é mais do que um atestado de prudência. Trata-se de uma necessidade incontestável.

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