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DIEESE - Reestruturação Produtiva - Julho/97
REESTRUTURAÇÃO PRODUTIVA REDUZ EMPREGO NOS BANCOS

.....

O sistema bancário nacional eliminou cerca de 40% dos postos de trabalho nos últimos sete anos. E o pior: com a privatização da rede bancária, a drástica diminuição do quadro de pessoal - resultado da adoção de processos de automação, de programas de produtividade e da terceirização de serviços -, tende a se acentuar ainda mais nos próximos anos. Estudo realizado na subseção do DIEESE no SEE Bancários do Rio de Janeiro revela que, além da diminuição do número de funcionários - de 812 mil, em janeiro de 1989, para 497 mil, em dezembro de 1996 -, o setor também está passando por mudanças estruturais. A mão-de-obra bancária está cada vez mais qualificada e alguns cargos, como os de escriturários e de chefias intermediárias, estão rapidamente sendo substituídos pelos serviços automatizados. O texto a seguir traz um resumo do trabalho Conseqüências da Reestruturação Produtiva dos Bancos sobre os Bancários

O sistema financeiro brasileiro vem passando por um ajuste estrutural nos últimos doze anos. Entre os vários motivos desse processo destacam-se a globalização do sistema financeiro internacional, o acirramento da concorrência internacional e nacional, as mudanças institucionais, os planos econômicos - particularmente o Cruzado e o Real - e, não menos importante, a redução do patamar da inflação.

A globalização e o trabalho bancário

O processo de globalização da economia mundial tem como uma de suas principais características a internacionalização do sistema financeiro. Estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI) apontam para a existência de aproximadamente U$ 30 trilhões girando no sistema financeiro internacional em busca de oportunidades de realização de novos lucros. As decisões são tomadas em tempos cada vez menores - e a informação é a variável determinante.

Os bancos são a ponta de lança desse processo, arquivando, catalogando e processando informações, de modo a identificar as possibilidades de investimento para seus clientes. Para tanto, é fundamental não só o acesso à informação, como também a capacidade de interpretá-la, visando satisfazer as necessidades dos clientes. O bancário tradicional, que tinha como principal meio de trabalho a moeda, começa a ceder espaço para um novo profissional, que tem na informação sua principal ferramenta de trabalho.

Essa mudança, ainda incipiente, pode ser apontada como tendência de médio e longo prazos para o profissional bancário. Entretanto, algumas de suas características já estão presentes no dia-a-dia de parcela significativa da categoria. Quando um cliente entra no banco querendo fazer um investimento, procura um consultor que lhe dê suporte para a tomada de decisões com relação ao melhor produto que se enquadre à sua realidade e que possibilite o maior retorno de seu investimento.

Outra variável chave nesse processo de globalização do sistema financeiro é a tecnologia, que permite a multiplicação dos produtos oferecidos aos clientes, a racionalização do processo de trabalho e a rapidez na tomada de decisões. Muitas vezes, a tecnologia é o próprio produto que o banco vende. A concorrência entre os bancos se concentra cada vez mais nas duas variáveis - informação e tecnologia -, que são a base para definir novos produtos a serem oferecidos aos clientes.

Características de um processo mundial, essas mudanças igualmente estão presentes no sistema financeiro brasileiro, que vem passando por alterações estruturais nos últimos anos, motivadas não só pelo acirramento da concorrência no setor em todo o mundo, mas também pelo processo de ajuste da economia brasileira, como se verá a seguir.

Reorganização e ajuste

A segunda metade da década de 80 pode ser considerada chave no processo de reestruturação para dentro (reorganização interna) dos bancos brasileiros. A edição do Plano Cruzado, primeira experiência heterodoxa de ajuste da economia brasileira, que derrubou a inflação mensal de índices próximos a 25,00% para cerca de 1,00% em apenas um mês, despertou nos bancos, principalmente as grandes instituições privadas de varejo, a necessidade de se prepararem para sobreviver num ambiente econômico sem inflação.

Somam-se a esse fato, dois anos mais tarde, duas alterações institucionais que aceleraram as mudanças nos bancos, provocando maior concorrência no mercado bancário brasileiro: a institucionalização da figura do banco múltiplo e o fim da exigência da carta patente para se abrir uma instituição financeira.

O impulso institucional à reorganização do setor aprofundou o ajuste para dentro, com os bancos diversificando seu campo de atuação com o objetivo de atender as múltiplas demandas de seus clientes. Provocou também um redimensio NAMEnto na atividade das instituições financeiras, com a intensificação do processo de terceirização e a diminuição contínua dos postos de trabalho na categoria, principalmente a partir de janeiro de 1989. Desde então até dezembro de 1996 foram eliminados 314.784 postos de trabalho, segundo dados do Ministério do Trabalho. No último mês do ano passado existiam menos de 500 mil bancários no Brasil (quadro 1).

Mais recentemente, a partir de julho de 1994, com a edição do Plano Real, os bancos que atuam no sistema financeiro brasileiro intensificaram o ajuste para fora (entre empresas). Estudo recente do Ministério da Fazenda mostra que, dos 271 bancos existentes no Brasil no início do plano de estabilização econômica, 68 já passaram por algum processo de ajuste envolvendo transferência do controle acionário, intervenção ou liquidação por parte do Banco Central, e incorporação por outra instituição financeira.


Quadro 1 - Número estimado de empregados no setor financeiro no Brasil (1)
1989 - 1996
Meses 1989 1990 1991 1992 1993 1994 1995 1996
Janeiro 811.892 825558 748.949 696.874 681.614 670.117 632.761 568.786
Fevereiro 813.076 825081 745.564 694.839 680.638 668.917 629.251 564.152
Março 811.542 826244 739.578 694.800 678.962 666.743 623.749 559.765
Abril 810.958 821843 734.806 693.684 678.085 664.452 622.060 555.232
Maio 811.930 810419 732.026 692.588 676.779 661.906 616.847 547.715
Junho 813.501 794897 731.925 691.266 676.052 659.291 611.751 532.003
Julho 816.143 778699 723.279 689.244 676.549 657.233 592.280 528.182
Agosto 814.206 771331 717.914 687.827 677.884 653.272 588.927 526.093
Setembro 815.249 768287 714.089 687.843 677.574 651.022 585.350 521.939
Outubro 818.580 763105 708.751 686.376 676.369 646.236 581.758 518.714
Novembro 822.688 758466 703.729 684.171 673.438 641.302 577.436 513.861
Dezembro 824.316 753636 700.217 682.304 671.740 637.647 571.582 497.108

(1) Bancos comerciais, de investimento etc.
Fonte: Cadastro Geral dos Empregados e Desempregados (Lei 4.923/65).
Elaboração: Dieese-Seeb/Rio.

Entre as mudanças internas recentes que ocorreram nos bancos se destacam a segmentação da clientela e diversificação de produtos, incorporação de novas tecnologias, com ênfase no auto-atendimento e modificações nas formas de gestão da mão-de-obra.

Segmentação da clientela e diversificação de produtos

Segmentação da clientela

Pequeno correntista - a estratégia é privilegiar o auto-atendimento para esse segmento.

Correntista de médio/grande porte - atendimento mais qualificado e assessoramento na tomada de decisões.

Alteração no leque de produtos oferecidos, com ênfase em:

emissão e gestão de cartão de crédito; seguros; planos de capitalização; gestão de fundos e patrimônio; prestação de serviços sofisticados, principalmente na área internacional;

Essas mudanças ocorridas na relação com os clientes e no leque de produtos oferecidos implicaram aumento da importância de acesso às informações econômico-financeiras e políticas, fundamentais no auxílio à tomada de decisão. Captar, armazenar e interpretar informações começam a fazer parte da realidade de trabalho do bancário, que desempenha funções de diretoria, e, atualmente, também no âmbito da gerência, com perspectivas de se generalizar por toda a categoria.

Novas tecnologias e auto-atendimento

A propagação da informática nos bancos possibilitou a diferenciação dos clientes, permitindo a adoção de estratégias distintas de atendimento, seja personalizado ( home banking), para clientes de média/alta renda, ou padronizado (máquinas de auto-atendimento nas agências), para aqueles de baixa renda.

Existem atualmente no país mais de 68 mil máquinas de atendimento eletrônico, sem contar com o atendimento personalizado (quadro 2).

Quadro 2 - Estrutura de atendimento eletrônico no Brasil
Equipamento Dentro da agência Ante-sala Quiosques Postos Total
ATMs (saque/depósito)

506

3.777

1.257

222

5.762
Cash dispenser

14.816

6334

371

4.471

2.5992
Terminal de depósito

2.934

388

10

5

3.337
Terminal de extrato/saldo

25.330

1984

152

3.442

30.908
Dispensador de cheques

232

596

1

6

835
Outros

961

21

0

221

1.203
Total

44.779

13.100

1.791

8.367

68.037
Fonte: Febraban - Balanço Social dos Bancos - 1996.

Gestão da mão-de-obra

As mudanças na gestão de produtos e serviços, aliadas ao uso intensivo da informática, provocaram alterações no trabalho bancário, assim como na sua forma de administração. A eliminação da duplicação de tarefas, a simplificação de procedimentos internos e a reorganização funcional, privilegiando a flexibilização - de jornada, remuneração e função, com ampliação das tarefas executadas pelos bancários -, são alguns dos processos em andamento.

Mudanças em andamento

O uso crescente da informática permitiu um controle mais objetivo da mão-de-obra, eliminando chefias intermediárias (quadro 3) e liberando a gerência da função de administrar a rotina. Às novas formas de controle do trabalho, mais objetivas (por exemplo, o número de autenticações realizadas por dia), se somou uma política de recursos humanos mais agressiva, que busca motivar o trabalhador para o objetivo da empresa, seja através de incentivo financeiro ou pela transferência a ele da gerência da rotina do seu dia-a-dia, agregando função e status ao posto de trabalho. Entre as estratégias mais utilizadas destaca-se a introdução de grupos (times) de trabalho, que possibilita um maior controle individual (e coletivo) do funcionário.

Quadro 3 - Mudanças nos principais postos de trabalho - (em %)
Ocupações

1979 (1)

1988 (2)

1993 (2)
Gerências

7,00

7,00

17,00
Chefias intermediárias

19,00

10,00

6,00
Caixas

12,00

12,00

15,00
Escriturários

58,00

34,00

27,00
Fonte: DIEESE. Elaboração: DIEESE - SEEB/Rio.
(1) Dados relativos ao Estado de São Paulo.
(2) Dados referentes à Grande São Paulo.

Além da redução das chefias intermediárias, o quadro 3 permite observar outras mudanças importantes na categoria bancária. Em primeiro lugar, o aumento do percentual de bancários em cargos de gerência. Há estimativas que indicam uma participação atual em torno de 22%. Esse movimento comprova a afirmação de que o sistema financeiro vem privilegiando o atendimento mais qualificado e personalizado aos médios e grandes clientes. Ao mesmo tempo, impõe ao bancário a necessidade de um aprimoramento contínuo, na tentativa de acompanhar as mudanças no setor. Um bom indicador da necessidade de formação dos bancários é a evolução do nível de escolaridade da categoria (quadro 4).

Quadro 4 - Grau de instrução do bancário - (em %)

Anos

1 ° Grau completo

2 ° Grau completo

3 ° Grau completo

1979 (1)

40,00

41,00

13,00

1988 (2)

38,00

43,00

18,70

1993 (2)

25,00

49,60

25,60

1994 (3)

15,00

56,40

28,00

1996 (3)

10,73

55,18

34,08
Fonte: DIEESE e Febraban.
Elaboração: DIEESE - SEEB/Rio.
(1) Dados relativos ao Estado de São Paulo.
(2) Dados referentes à Grande São Paulo.
(3) Dados da Febraban.

O segundo ponto em destaque no quadro 3 é a acentuada diminuição do número de escriturários na categoria. Em apenas catorze anos, a participação deles no contingente total de bancários reduziu-se cerca de 53%, em conseqüência da intensificação do uso da informática, além da própria reorganização do trabalho bancário.

Nas década de 70 e 80, os escriturários se caracterizavam pela baixa idade e pelo pouco tempo de permanência no banco, quase sempre menos de cinco anos. Com a mudança da participação deles na categoria, alteraram-se também os indicadores de perfil da ocupação, como mostram as tabelas a seguir.

Os dados reunidos no quadro 5 indicam que o emprego nos bancos tem deixado, paulati NAMEnte, de se caracterizar pela temporariedade - como se observou nas décadas de 70 e 80, principalmente nos bancos privados -, transformando-se, de fato, em uma profissão. Em conseqüência, tem aumentado o tempo de permanência dos trabalhadores nas instituições. Enquanto em 1979 pouco mais da metade, ou exatos 52%, da categoria dos bancários estava há menos de cinco anos no emprego, dezessete anos depois esse percentual havia diminuído para 25,43%. Já a participação dos funcionários com mais de dez anos de banco passou de 20,00% para 47,70%, no mesmo período.

Quadro 5 - Evolução do tempo de permanência no banco - (em %)

Anos

Até 5 anos

Entre 5 e 10 anos

Mais de 10 anos

1979 (1)

52,00

28,00

20,00

1994 (2)

29,00

32,80

38,20

1995 (2)

21,38

30,77

47,86

1996 (2)

25,43

26,74

47,70
Fonte: DIEESE, Febraban.
Elaboração: DIEESE - SEEB/Rio.
(1) Dados para o Estado de São Paulo.
(2) Dados da Febraban.


A idade média do bancário também tem aumentado, como demonstram as informações do quadro 6. Isso vem ocorrendo não só em função do maior tempo de permanência do funcionário na instituição, mas também pelo fato de, atualmente, os bancos só estarem contratando funcionários com o 3 ° grau completo, ou em vias de completar, o que resulta no aumento da idade média de ingresso do bancário na categoria.

Apesar da pequena série mostrada no quadro 6, entre 1994 e 1996 observa-se o crescimento do número de bancários com idade entre 30 e 49 anos. Esta faixa etária representava 69,70% da categoria no ano passado, indicando aumento de 15,40% nos últimos três anos.

Quadro 6 - Evolução da idade média dos bancários
Brasil 1994/96 - (em %)

Idade

Até 19 anos

De 20 a 29

De 30 a 39

De 40 a 49

50 anos ou mais

1994

1,80

34,80

43,50

16,90

3,00

1995

1,86

29,59

43,24

22,78

2,52

1996

1,14

26,60

45,09

24,61

2,56
Fonte: Febraban.
Elaboração: DIEESE - SEEB/Rio.

As mudanças em andamento na categoria bancária, resultado da estratégia de reestruturação dos bancos, têm alterado substancialmente o perfil dos trabalhadores. Maior qualificação, maior poder de decisão, polivalência e iniciativa são algumas das características exigidas do bancário nos dias de hoje. O processo de ajuste nos bancos tem sido extremamente doloroso para a categoria. Demissão em massa de trabalhadores, intensificação do processo de trabalho, flexibilização da jornada e do salário marcam essas mudanças. A perspectiva é que esse processo se intensifique nos próximos anos, exigindo o aprimoramento constante do bancário. O movimento sindical pode ter papel-chave nesse cenário, não só discutindo a questão do emprego - ponto estratégico nos dias de hoje -, mas também da formação profissional, da saúde do trabalhador, da sua remuneração. Discutir, enfim, a qualidade de vida do bancário.



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