O sistema bancário nacional eliminou cerca de 40% dos postos de trabalho nos últimos sete anos. E o pior: com a privatização da rede bancária, a drástica diminuição do quadro de pessoal - resultado da adoção de processos de automação, de programas de produtividade e da terceirização de serviços -, tende a se acentuar ainda mais nos próximos anos. Estudo realizado na subseção do DIEESE no SEE Bancários do Rio de Janeiro revela que, além da diminuição do número de funcionários - de 812 mil, em janeiro de 1989, para 497 mil, em dezembro de 1996 -, o setor também está passando por mudanças estruturais. A mão-de-obra bancária está cada vez mais qualificada e alguns cargos, como os de escriturários e de chefias intermediárias, estão rapidamente sendo substituídos pelos serviços automatizados. O texto a seguir traz um resumo do trabalho Conseqüências da Reestruturação Produtiva dos Bancos sobre os Bancários
O sistema financeiro brasileiro vem passando por um ajuste estrutural nos últimos doze anos. Entre os vários motivos desse processo destacam-se a globalização do sistema financeiro internacional, o acirramento da concorrência internacional e nacional, as mudanças institucionais, os planos econômicos - particularmente o Cruzado e o Real - e, não menos importante, a redução do patamar da inflação.
A globalização e o trabalho bancário
O processo de globalização da economia mundial tem como uma de suas principais características a internacionalização do sistema financeiro. Estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI) apontam para a existência de aproximadamente U$ 30 trilhões girando no sistema financeiro internacional em busca de oportunidades de realização de novos lucros. As decisões são tomadas em tempos cada vez menores - e a informação é a variável determinante.
Os bancos são a ponta de lança desse processo, arquivando, catalogando e processando informações, de modo a identificar as possibilidades de investimento para seus clientes. Para tanto, é fundamental não só o acesso à informação, como também a capacidade de interpretá-la, visando satisfazer as necessidades dos clientes. O bancário tradicional, que tinha como principal meio de trabalho a moeda, começa a ceder espaço para um novo profissional, que tem na informação sua principal ferramenta de trabalho.
Essa mudança, ainda incipiente, pode ser apontada como tendência de médio e longo prazos para o profissional bancário. Entretanto, algumas de suas características já estão presentes no dia-a-dia de parcela significativa da categoria. Quando um cliente entra no banco querendo fazer um investimento, procura um consultor que lhe dê suporte para a tomada de decisões com relação ao melhor produto que se enquadre à sua realidade e que possibilite o maior retorno de seu investimento.
Outra variável chave nesse processo de globalização do sistema financeiro é a tecnologia, que permite a multiplicação dos produtos oferecidos aos clientes, a racionalização do processo de trabalho e a rapidez na tomada de decisões. Muitas vezes, a tecnologia é o próprio produto que o banco vende. A concorrência entre os bancos se concentra cada vez mais nas duas variáveis - informação e tecnologia -, que são a base para definir novos produtos a serem oferecidos aos clientes.
Características de um processo mundial, essas mudanças igualmente estão presentes no sistema financeiro brasileiro, que vem passando por alterações estruturais nos últimos anos, motivadas não só pelo acirramento da concorrência no setor em todo o mundo, mas também pelo processo de ajuste da economia brasileira, como se verá a seguir.
Reorganização e ajuste
A segunda metade da década de 80 pode ser considerada chave no processo de reestruturação para dentro (reorganização interna) dos bancos brasileiros. A edição do Plano Cruzado, primeira experiência heterodoxa de ajuste da economia brasileira, que derrubou a inflação mensal de índices próximos a 25,00% para cerca de 1,00% em apenas um mês, despertou nos bancos, principalmente as grandes instituições privadas de varejo, a necessidade de se prepararem para sobreviver num ambiente econômico sem inflação.
Somam-se a esse fato, dois anos mais tarde, duas alterações institucionais que aceleraram as mudanças nos bancos, provocando maior concorrência no mercado bancário brasileiro: a institucionalização da figura do banco múltiplo e o fim da exigência da carta patente para se abrir uma instituição financeira.
O impulso institucional à reorganização do setor aprofundou o ajuste para dentro, com os bancos diversificando seu campo de atuação com o objetivo de atender as múltiplas demandas de seus clientes. Provocou também um redimensio NAMEnto na atividade das instituições financeiras, com a intensificação do processo de terceirização e a diminuição contínua dos postos de trabalho na categoria, principalmente a partir de janeiro de 1989. Desde então até dezembro de 1996 foram eliminados 314.784 postos de trabalho, segundo dados do Ministério do Trabalho. No último mês do ano passado existiam menos de 500 mil bancários no Brasil (quadro 1).
Mais recentemente, a partir de julho de 1994, com a edição do Plano Real, os bancos que atuam no sistema financeiro brasileiro intensificaram o ajuste para fora (entre empresas). Estudo recente do Ministério da Fazenda mostra que, dos 271 bancos existentes no Brasil no início do plano de estabilização econômica, 68 já passaram por algum processo de ajuste envolvendo transferência do controle acionário, intervenção ou liquidação por parte do Banco Central, e incorporação por outra instituição financeira.
Quadro 1 - Número estimado de empregados no setor financeiro no Brasil (1) 1989 - 1996
Meses
1989
1990
1991
1992
1993
1994
1995
1996
Janeiro
811.892
825558
748.949
696.874
681.614
670.117
632.761
568.786
Fevereiro
813.076
825081
745.564
694.839
680.638
668.917
629.251
564.152
Março
811.542
826244
739.578
694.800
678.962
666.743
623.749
559.765
Abril
810.958
821843
734.806
693.684
678.085
664.452
622.060
555.232
Maio
811.930
810419
732.026
692.588
676.779
661.906
616.847
547.715
Junho
813.501
794897
731.925
691.266
676.052
659.291
611.751
532.003
Julho
816.143
778699
723.279
689.244
676.549
657.233
592.280
528.182
Agosto
814.206
771331
717.914
687.827
677.884
653.272
588.927
526.093
Setembro
815.249
768287
714.089
687.843
677.574
651.022
585.350
521.939
Outubro
818.580
763105
708.751
686.376
676.369
646.236
581.758
518.714
Novembro
822.688
758466
703.729
684.171
673.438
641.302
577.436
513.861
Dezembro
824.316
753636
700.217
682.304
671.740
637.647
571.582
497.108
(1) Bancos comerciais, de investimento etc.
Fonte: Cadastro Geral dos Empregados e Desempregados (Lei 4.923/65).
Elaboração: Dieese-Seeb/Rio.
Entre as mudanças internas recentes que ocorreram nos bancos se destacam a segmentação da clientela e diversificação de produtos, incorporação de novas tecnologias, com ênfase no auto-atendimento e modificações nas formas de gestão da mão-de-obra.
Segmentação da clientela e diversificação de produtos
Segmentação da clientela
Pequeno correntista - a estratégia é privilegiar o auto-atendimento para esse segmento.
Correntista de médio/grande porte - atendimento mais qualificado e assessoramento na tomada de decisões.
Alteração no leque de produtos oferecidos, com ênfase em:
emissão e gestão de cartão de crédito;
seguros;
planos de capitalização;
gestão de fundos e patrimônio;
prestação de serviços sofisticados, principalmente na área internacional;
Essas mudanças ocorridas na relação com os clientes e no leque de produtos oferecidos implicaram aumento da importância de acesso às informações econômico-financeiras e políticas, fundamentais no auxílio à tomada de decisão. Captar, armazenar e interpretar informações começam a fazer parte da realidade de trabalho do bancário, que desempenha funções de diretoria, e, atualmente, também no âmbito da gerência, com perspectivas de se generalizar por toda a categoria.
Novas tecnologias e auto-atendimento
A propagação da informática nos bancos possibilitou a diferenciação dos clientes, permitindo a adoção de estratégias distintas de atendimento, seja personalizado ( home banking), para clientes de média/alta renda, ou padronizado (máquinas de auto-atendimento nas agências), para aqueles de baixa renda.
Existem atualmente no país mais de 68 mil máquinas de atendimento eletrônico, sem contar com o atendimento personalizado (quadro 2).
Quadro 2 - Estrutura de atendimento eletrônico no Brasil
Equipamento
Dentro da agência
Ante-sala
Quiosques
Postos
Total
ATMs (saque/depósito)
506
3.777
1.257
222
5.762
Cash dispenser
14.816
6334
371
4.471
2.5992
Terminal de depósito
2.934
388
10
5
3.337
Terminal de extrato/saldo
25.330
1984
152
3.442
30.908
Dispensador de cheques
232
596
1
6
835
Outros
961
21
0
221
1.203
Total
44.779
13.100
1.791
8.367
68.037
Fonte: Febraban - Balanço Social dos Bancos - 1996.
Gestão da mão-de-obra
As mudanças na gestão de produtos e serviços, aliadas ao uso intensivo da informática, provocaram alterações no trabalho bancário, assim como na sua forma de administração. A eliminação da duplicação de tarefas, a simplificação de procedimentos internos e a reorganização funcional, privilegiando a flexibilização - de jornada, remuneração e função, com ampliação das tarefas executadas pelos bancários -, são alguns dos processos em andamento.
Mudanças em andamento
O uso crescente da informática permitiu um controle mais objetivo da mão-de-obra, eliminando chefias intermediárias (quadro 3) e liberando a gerência da função de administrar a rotina. Às novas formas de controle do trabalho, mais objetivas (por exemplo, o número de autenticações realizadas por dia), se somou uma política de recursos humanos mais agressiva, que busca motivar o trabalhador para o objetivo da empresa, seja através de incentivo financeiro ou pela transferência a ele da gerência da rotina do seu dia-a-dia, agregando função e status ao posto de trabalho. Entre as estratégias mais utilizadas destaca-se a introdução de grupos (times) de trabalho, que possibilita um maior controle individual (e coletivo) do funcionário.
Quadro 3 - Mudanças nos principais postos de trabalho - (em %)
Ocupações
1979 (1)
1988 (2)
1993 (2)
Gerências
7,00
7,00
17,00
Chefias intermediárias
19,00
10,00
6,00
Caixas
12,00
12,00
15,00
Escriturários
58,00
34,00
27,00
Fonte: DIEESE.
Elaboração: DIEESE - SEEB/Rio.
(1) Dados relativos ao Estado de São Paulo.
(2) Dados referentes à Grande São Paulo.
Além da redução das chefias intermediárias, o quadro 3 permite observar outras mudanças importantes na categoria bancária. Em primeiro lugar, o aumento do percentual de bancários em cargos de gerência. Há estimativas que indicam uma participação atual em torno de 22%. Esse movimento comprova a afirmação de que o sistema financeiro vem privilegiando o atendimento mais qualificado e personalizado aos médios e grandes clientes. Ao mesmo tempo, impõe ao bancário a necessidade de um aprimoramento contínuo, na tentativa de acompanhar as mudanças no setor. Um bom indicador da necessidade de formação dos bancários é a evolução do nível de escolaridade da categoria (quadro 4).
Quadro 4 - Grau de instrução do bancário - (em %)
Anos
1 ° Grau completo
2 ° Grau completo
3 ° Grau completo
1979
(1)
40,00
41,00
13,00
1988 (2)
38,00
43,00
18,70
1993 (2)
25,00
49,60
25,60
1994 (3)
15,00
56,40
28,00
1996 (3)
10,73
55,18
34,08
Fonte: DIEESE e Febraban.
Elaboração: DIEESE - SEEB/Rio.
(1) Dados relativos ao Estado de São Paulo.
(2) Dados referentes à Grande São Paulo.
(3) Dados da Febraban.
O segundo ponto em destaque no quadro 3 é a acentuada diminuição do número de escriturários na categoria. Em apenas catorze anos, a participação deles no contingente total de bancários reduziu-se cerca de 53%, em conseqüência da intensificação do uso da informática, além da própria reorganização do trabalho bancário.
Nas década de 70 e 80, os escriturários se caracterizavam pela baixa idade e pelo pouco tempo de permanência no banco, quase sempre menos de cinco anos. Com a mudança da participação deles na categoria, alteraram-se também os indicadores de perfil da ocupação, como mostram as tabelas a seguir.
Os dados reunidos no quadro 5 indicam que o emprego nos bancos tem deixado, paulati NAMEnte, de se caracterizar pela temporariedade - como se observou nas décadas de 70 e 80, principalmente nos bancos privados -, transformando-se, de fato, em uma profissão. Em conseqüência, tem aumentado o tempo de permanência dos trabalhadores nas instituições. Enquanto em 1979 pouco mais da metade, ou exatos 52%, da categoria dos bancários estava há menos de cinco anos no emprego, dezessete anos depois esse percentual havia diminuído para 25,43%. Já a participação dos funcionários com mais de dez anos de banco passou de 20,00% para 47,70%, no mesmo período.
Quadro 5 - Evolução do tempo de permanência no banco - (em %)
Anos
Até 5 anos
Entre 5 e 10 anos
Mais de 10 anos
1979 (1)
52,00
28,00
20,00
1994 (2)
29,00
32,80
38,20
1995 (2)
21,38
30,77
47,86
1996 (2)
25,43
26,74
47,70
Fonte: DIEESE, Febraban.
Elaboração: DIEESE - SEEB/Rio.
(1) Dados para o Estado de São Paulo.
(2) Dados da Febraban.
A idade média do bancário também tem aumentado, como demonstram as informações do quadro 6. Isso vem ocorrendo não só em função do maior tempo de permanência do funcionário na instituição, mas também pelo fato de, atualmente, os bancos só estarem contratando funcionários com o 3 °
grau completo, ou em vias de completar, o que resulta no aumento da idade média de ingresso do bancário na categoria.
Apesar da pequena série mostrada no quadro 6, entre 1994 e 1996 observa-se o crescimento do número de bancários com idade entre 30 e 49 anos. Esta faixa etária representava 69,70% da categoria no ano passado, indicando aumento de 15,40% nos últimos três anos.
Quadro 6 - Evolução da idade média dos bancários Brasil
1994/96 - (em %)
Idade
Até 19 anos
De 20 a 29
De 30 a 39
De 40 a 49
50 anos ou mais
1994
1,80
34,80
43,50
16,90
3,00
1995
1,86
29,59
43,24
22,78
2,52
1996
1,14
26,60
45,09
24,61
2,56
Fonte: Febraban.
Elaboração: DIEESE - SEEB/Rio.
As mudanças em andamento na categoria bancária, resultado da estratégia de reestruturação dos bancos, têm alterado substancialmente o perfil dos trabalhadores. Maior qualificação, maior poder de decisão, polivalência e iniciativa são algumas das características exigidas do bancário nos dias de hoje. O processo de ajuste nos bancos tem sido extremamente doloroso para a categoria. Demissão em massa de trabalhadores, intensificação do processo de trabalho, flexibilização da jornada e do salário marcam essas mudanças. A perspectiva é que esse processo se intensifique nos próximos anos, exigindo o aprimoramento constante do bancário.
O movimento sindical pode ter papel-chave nesse cenário, não só discutindo a questão do emprego - ponto estratégico nos dias de hoje -, mas também da formação profissional, da saúde do trabalhador, da sua remuneração. Discutir, enfim, a qualidade de vida do bancário.
DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Económicos