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DIEESE - Estudos e Pesquisas - Novembro/97
Índice do Boletim DIEESE - Novembro de 1997

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CRISE NAS BOLSAS DE VALORES ABALA A ECONOMIA MUNDIAL 4
A atual crise nos mercados financeiros internacionais deve-se, primeiramente, à crise dos chamados tigres asiáticos. O que explicava tal apelido do modelo de desenvolvimento econômico desses países eram as altas taxas de crescimento obtidas por eles desde a década de 80. No entanto, esse crescimento era explicado, em grande parte, pela existência de alguns fatores, como elevadas taxas de poupança, que resultavam em investimentos maciços em capital físico (fábricas, equipamentos, novas tecnologias etc.), trei NAMEnto e incorporação de mão-de-obra ao mercado de trabalho. Mas, uma vez esgotado o ciclo de mobilização, a expansão econômica passaria a depender de aumentos de eficiência e de produtividade, não sendo possível repetir os índices conseguidos anteriormente.

Aliado a esse fato, há cerca de dois anos, a recuperação da economia dos Estados Unidos atuou no sentido de diminuir a competitividade da produção dos tigres asiáticos. Dessa forma, as economias do sudeste da Ásia, incluindo o Japão, apresentaram ao longo de 1997 sinais de declínio do crescimento e, em alguns casos, de redução mesmo do nível de atividade da economia. A perspectiva de crise econômica e, conseqüentemente, de queda nos lucros das empresas indicava que as cotações das suas ações estariam sobrevalorizadas, já que o valor que representam é, fundamentalmente, a expectativa de lucro futuro. Como tal expectativa diminuiu, o valor das ações teve o mesmo comportamento.

Além da queda do valor das ações, existe a própria fragilidade do sistema financeiro dos países asiáticos. A facilidade de captação de crédito e as taxas de juros relativamente baixas resultaram na explosão do investimento, fazendo com que os mercados imobiliário e acionário tivessem seus ativos sobrevalorizados, o que contribuiu para deixar o mercado de capitais altamente vulnerável às mudanças de expectativas que afetassem o preço desses ativos.

No entanto, a crise asiática começou, de fato, quando a essas fragilidades se somaram algumas incertezas políticas: problemas de sucessão em alguns governos, problemas de fronteiras em certos países e dúvidas quanto à consistência da política macroeconômica em quase todas as economias do sudeste asiático.

Assim, estavam colocadas as condições para que surgissem movimentos especulativos contra as moedas locais. Isso acabou precipitando, entre junho e agosto últimos, a queda da Bolsa de Valores da Tailândia, seguida por uma crise monetária com a desvalorização da moeda tailandesa, o baht, e, em seguida, das divisas de outros países da região - Filipinas, Cingapura e Indonésia. Em outubro, esse movimento atingiu Hong Kong - cidade-nação com PIB per capita superior a US$ 20 mil - e de lá se espalhou por todo o mundo.

Como os outros tigres asiáticos, Hong Kong conta com um sistema financeiro que, embora movimente um volume significativo de recursos, possui grandes fragilidades, como se fosse um "gigante com pés de barro". O problema está na contrapartida dos empréstimos feitos pelos bancos. Estes tomaram como garantia imóveis com preços sobrevalorizados (Hong Kong possui o metro quadrado mais caro do mundo). Com a queda nos preços dos imóveis, a carteira de crédito e a saúde financeira dos bancos se deterioraram.

Todos esses fatores estimularam os investidores (e também especuladores) que estavam aplicando no mercado financeiro de Hong Kong a "fugirem" de lá. Assim, rapidamente eles passaram a vender as ações que possuíam e a adquirir dólares para aplicar em economias mais seguras. Como o dólar de Hong Kong tem paridade com o dólar dos Estados Unidos (situação idêntica à da Argentina), para evitar a fuga de capitais e a desvalorização da moeda local, a taxa de juros chegou a ser elevada para 200% ao ano.

Reflexos no Brasil

A crise financeira atingiu especialmente o Brasil - a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) foi a que mais caiu em todo o mundo - por duas razões principais:

Para compensar os prejuízos que tiveram na Ásia, os investidores venderam papéis em outras bolsas de valores por todo o mundo para poderem fechar o dia no azul (sem perdas). Com isso, provocaram quedas em cadeia do valor das ações, pois, quando estas são vendidas, o preço tende a baixar. Quando essa venda é maciça, os preços despencam, fazendo com que os índices das bolsas de valores também caiam. Foi assim que o efeito da crise financeira asiática se espalhou pelo mundo.

A situação do Brasil tem muitas semelhanças com a observada nos tigres asiáticos, especialmente no que diz respeito à política econômica e aos déficits externos. Os investidores sabem disso e, por precaução, muitos resolveram levar seu dinheiro para lugares mais tranqüilos, com medo de que a crise chegasse tão forte aqui quanto chegou nos países do sudeste asiático.

Esses dois fatores, aliados a uma tentativa de especulação contra o real, resultaram numa intensa saída de capital do país, o que poderia ter conseqüências sérias para a economia brasileira, como foi amplamente divulgado pela imprensa.

Nesse momento, a pergunta que fica para a maioria das pessoas é a seguinte: por que o capital estrangeiro é tão importante para o Brasil?

A resposta a essa questão não é simples, mas é possível indicar suas linhas gerais, reportando-se ao início do Plano Real. No segundo semestre de 1994, as taxas de inflação despencaram, o que contribuiu para aumentar o poder de compra da população, sobretudo a de baixa renda, e deu início a uma verdadeira "farra de consumo", pelo menos para aquelas pessoas que contavam com mais dinheiro no bolso.

Para evitar o aumento dos preços, o governo abriu ainda mais a economia às importações, que serviram de referência aos valores cobrados pelos produtos nacionais e supriram o excedente de demanda interna. Soma-se a isso a famosa âncora cambial adotada no plano de estabilização, que fez com que 1 real valesse mais que 1 dólar, logo que as novas medidas econômicas foram implementadas. Dessa forma, as importações ficaram mais baratas e a inflação, sob controle. O custo dessa política foi o surgimento de um enorme aumento das compras externas, que levaram o país, após mais de uma década de superávits (exportação maior que importação), a conviver com elevados déficits comerciais (importação maior que exportação).

Ao longo desse período o real vem sofrendo desvalorizações, mas, segundo especialistas, ainda continua sobrevalorizado entre 10% e 20% frente ao dólar. Isso faz com que as exportações fiquem mais caras e as importações, mais baratas. Em conseqüência, o déficit comercial se mantém em níveis muito elevados.

Como o Brasil ainda importa mais do que exporta, o país tem apresentado déficits contínuos em suas transações com o exterior: somente nos últimos doze meses, o déficit comercial alcançou US$ 9,5 bilhões, volume que, de alguma forma, tem de ser coberto.

Para tanto, o governo utiliza a entrada de capitais estrangeiros, que podem ser de curto ou longo prazo. Os recursos de longo prazo são aqueles destinados a investimentos produtivos no país e para a compra de empresas (especialmente através das privatizações). Já os de curto prazo são os famosos "capitais especulativos", que se movem ao redor do mundo buscando apenas as maiores taxas de juros e a melhor rentabilidade possível. Foram justamente estes últimos os mais atingidos pela crise asiática e que começaram a sair do Brasil.

Para que os especuladores pudessem transferir seus recursos para o exterior, eles teriam que trocar o real que possuíam por dólar 1 . Isso representou um forte aumento da demanda pela divisa norte-americana, o que poderia culminar com o aumento de sua cotação frente à moeda brasileira. Em outras palavras, poderia haver uma desvalorização do real em relação ao dólar, além da margem de flutuação (banda cambial) estipulada pelo Banco Central (BC). Para evitar que isso ocorresse, a autoridade monetária tomou uma série de medidas:

Venda de reservas
O Banco Central vendeu o equivalente a quase US$ 10 bilhões em divisas, subtraídas de uma reserva total de US$ 60 bilhões que o Brasil possui. Com isso, a autoridade monetária evitou que a cotação do dólar subisse além de sua margem de flutuação.

Aumento dos juros

O Banco Central também aumentou a taxa básica de juros de 1,58% para 3,05% ao mês, através da venda de títulos cambiais, visando incentivar os aplicadores a não abandonarem o país. Em outras palavras, o BC tomou empréstimos do sistema financeiro com a promessa de que irá pagá-los com elevadas taxas de juros mais correção cambial. Desse modo, o título dá a garantia ao investidor de que não perderá com eventuais mudanças no câmbio, além de sinalizar aos agentes econômicos que o BC não pretende desvalorizar a moeda, pois, caso isso ocorresse, o próprio banco seria o principal perdedor.

Compra de ações por estatais e fundos de pensãos

O governo estimulou os fundos de pensão e obrigou as empresas estatais a adquirirem ações nas bolsa de valores, buscando, assim, manter o valor das ações e evitar quedas ainda maiores desses ativos.

Socorro às instituições financeiras

Muitas instituições financeiras brasileiras e bancos de varejo (responsáveis por 41% dos negócios nas bolsas de valores) apostaram em uma desvalorização do real e, com isso, passaram a adquirir dólares. Como a taxa de câmbio não se alterou significativamente, em determinado momento, os bancos possuíam pouca liquidez (dinheiro em caixa) para honrar seus compromissos. Ou seja, não tinham dinheiro para pagar as compras antecipadas de dólares e atender seus clientes nas agências. Assim, o BC voltou a agir, resgatando títulos da dívida pública (com o pagamento antecipado de empréstimos contraídos anteriormente) em poder dessas instituições. Dessa maneira, o BC injetou dinheiro nos bancos para que não corressem o risco de quebrar depois de especularem contra o real.

Juros sobem

O brutal aumento da taxa de juros - devido às conseqüências que traz para toda a economia, com reflexos tanto no setor privado quanto para as contas do setor público - foi a medida mais importante tomada pelo governo diante da crise que sacudiu o mercado financeiro internacional.

Com a possibilidade de emprestar para o governo com taxas de juros mais elevadas, nenhum banco ou financeira iria fazê-lo, com percentuais menores, para o consumidor. Assim, há uma elevação geral da taxa de juros não só para as operações financeiras, mas também para o crediário e o sistema financeiro habitacional, através da taxa referencial (TR). Mais uma vez, quem pagará a conta será o consumidor.

Os mutuários do sistema financeiro da habitação (SFH), por exemplo, devem enfrentar uma situação ainda mais difícil para poder saldar suas dívidas. Em outubro, a taxa referencial (TR), que corrige muitas prestações de contratos da casa própria, registrou variação de 0,65% (ou 8,08% ao ano), percentual que saltou 1,53% em novembro, indicando um brutal aumento de 19,8% no período de doze meses.

Isso significa, por exemplo, que um mutuário que tivesse um saldo devedor de R$ 40 mil corrigido apenas pela variação da TR estaria, ao final de um ano devendo, aproximadamente, R$ 43 mil, considerada a taxa de outubro. Em novembro, esse montante teria se elevado para cerca de R$ 48 mil.

Dessa forma, o conjunto de medidas adotadas pelo Banco Central desestimulará não apenas o consumo mas também o investimento, com reflexos negativos no desempenho da economia no último bimestre do ano, quando sazonalmente se observa o reaquecimento dos negócios entre a indústria e o comércio em função das festas de fim de ano.

A previsão de crescimento do produto interno bruto (PIB), inicialmente estimado em 3,5% para este ano, já foi revista para 2%. Essa queda do consumo e do crescimento da economia implicará, em última instância, dificuldades para as empresas, com conseqüente aumento da inadimplência e do desemprego. O PIB é justamente o valor total de bens e serviços produzidos em um país durante um determinado período.

Cenários e perspectivas

A partir de agora, as perspectivas de desenvolvimento da economia brasileira dependem de uma série de questões, que ainda permanecem sem resposta:

a crise financeira internacional ficará restrita às bolsas de valores ou poderá atingir outros setores da economia? a crise é estrutural ou trata-se de um ajuste de posição após um período de alta significativa das bolsas de valores? a crise é global? qual será, no curto e médio prazo, o comportamento da política cambial nos países asiáticos?

Por fim, cabe destacar a estratégica posição do Japão, país líder na Ásia e segunda maior economia do mundo. Em termos comerciais, 37% das exportações japonesas destinam-se aos países do sudeste asiático. Uma recessão mais prolongada nessas economias poderia comprometer o desempenho da economia japonesa e, em conseqüência, o de outros países desenvolvidos, especialmente os Estados Unidos, onde os japoneses detêm pesados investimentos. Portanto, haveria o risco de uma desaceleração global do nível de atividade econômica.

Apesar da falta de resposta àquelas questões, por ora pode-se imaginar três cenários:

Cenário 1 - Depressão

O ciclo especulativo do mercado financeiro levaria o mundo para uma crise global. Os ativos passariam por uma prolongada fase de desvalorização em que os investidores se desfariam do seu patrimônio. Assim, ocorreria a perda de riqueza, o que afetaria o crescimento econômico, acarretando queda nos investimentos, no consumo, crescimento do desemprego, aumento da inadimplência (crise no sistema financeiro). Enfim, a recessão mundial.

Cenário 2 - Transição

As bolsas de valores se recuperariam, promovendo uma correção dos preços das ações. Os agentes econômicos passariam a agir com mais cautela. As privatizações seguiriam nos países emergentes. Os modelos de câmbio fixo poderiam ficar fragilizados e os investidores continuariam apostando na capacidade dos governos de resistirem aos ataques especulativos. Nesse cenário ocorreriam correções globais e crises localizadas.

Cenário 3 - Recuperação

A avaliação é a de que nada aconteceu - é o livre mercado agindo e os acontecimentos são passageiros. As economias asiáticas estariam se preparando para a retomada do crescimento. Os Estados Unidos reafirmariam sua posição de liderança no mercado internacional. Aconteceria um lento, mas seguro, crescimento da economia mundial.

Vocabulário básico

Para compreender o funcio NAMEnto do mercado financeiro é preciso se ater a algumas questões básicas:

Por que as empresas emitem ações?

Uma das razões é por ser uma forma mais barata de financiamento em comparação com o empréstimo bancário.

- Por que as pessoas compram ações?

Em resumo, existem dois tipos de investidores: um que se comporta de maneira especulativa e busca ganhar dinheiro no curto prazo, comprando e vendendo ações; e outro que investe na aquisição desses ativos no longo prazo, esperando o retorno conforme o desempenho econômico-financeiro da empresa. Neste caso, espera receber bons dividendos.

- A questão-chave é saber o momento certo da compra (preços em baixa) e o período de maior lucratividade para a venda das ações (preços em alta).

- Outro fator importante é analisar o que influencia o comportamento do preço das ações.

Glossário

Bolsa de valores - é uma sociedade civil sem fins lucrativos, formada por corretoras, que mantém local apropriado para a realização de negócios com ações. Centraliza as operações de compra e venda de ações, agiliza troca de informações sobre preços, faz liquidação de contratos etc. No Brasil, a fiscalização do mercado de capitais é de responsabilidade da Comissão de Valores Imobiliários (CVM).

Ações - representam as unidades básicas de propriedade da sociedade anônima. O estatuto da empresa deve especificar o número de ações que a organização está autorizada a emitir. Os papéis podem ser de duas espécies: ordinárias (ON ou OP), que dão direito a voto nas assembléias de acionistas da empresa, ou preferenciais (PN ou PP), que têm prioridade no recebimento de dividendo, mas não dão direito a voto.

Dividendos - distribuição aos acionistas do resultado em dinheiro proporcionalmente à quantidade de ações possuídas e com recursos oriundos dos lucros gerados pela empresa em um determinado período. A atual legislação prevê a distribuição de um dividendo mínimo de 25% do lucro apurado.

Preço das ações - em situação normal, o preço de uma ação é formado de acordo com a expectativa de lucro da empresa. Quando há expectativa de um lucro elevado, o investidor pode receber um dividendo maior e a empresa pode incorporar o lucro ao patrimônio, valorizando a ação.

Oscilações - alguns fatores podem interferir, com menor ou maior intensidade, no preço das ações e nas bolsas de valores: taxas de juros, inflação, boatos, crises externas, planos econômicos, investimentos estrangeiros, operadores antiéticos, privatização etc.

Índices - os índices são utilizados para medir o desempenho das bolsas de valores e representam um grupo selecionado de ações. Desse modo, a evolução desses indicadores mostra a evolução dos ganhos no mercado financeiro como um todo. Por exemplo, o Ibovespa é o principal índice das bolsas brasileiras e representa as 51 ações de maior importância na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa).


1 Quando chega ao Brasil, o especulador troca seus dólares por reais. Os dólares trocados compõem as reservas cambiais do Banco Central (BC).

(Este texto foi escrito com informações disponíveis até 14 de novembro de 1997.)


Boletim nº 200
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