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DIEESE - Estudos e Pesquisas - Agosto/97
Índice do Boletim DIEESE - Agosto de 1997

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TEMPO DE TRABALHO DOS METALÚRGICOS DE GUARULHOS E REGIÃO EM 1996 4
A primeira pesquisa de perfil profissional da categoria, realizada pelo DIEESE para o Sindicato dos Metalúgicos de Guarulhos e Região, na Grande São Paulo, concluída no final de 1996, apurou dados sobre a condição de vida, habitação, educação, saúde, emprego e cidadania dos trabalhadores. Neste texto, relata-se, entre outras, as principais informações obtidas pelo levantamento sobre a jornada de trabalho e horas extras, realizadas especialmente pelos empregados da área de produção.

Pesquisa 1 realizada em 1996, pelo Sindicato dos Metalúrgicos de Guarulhos, Arujá, Mairiporã e Santa Isabel (STIMMMEG) e o DIEESE, constatou que perto de 2/3 (61,3%) dos trabalhadores metalúrgicos que recebiam até R$1.800,00 completavam jornadas de trabalho de mais de 40 a 44 horas e 20% trabalhavam mais de 44 horas semanais, principalmente na área da produção 2. Mostrou também que entre os 26,4% que estendiam a jornada habitual com horas extras, mais da metade completava de 6 a 10 horas extras, resultando em mais de 50 horas trabalhadas por semana. Aproximadamente 40% trabalhavam em firmas com um turno na produção; 28%, em empresas com dois turnos e 30%, com três turnos, sendo que somente 7% trabalhavam em turnos de revezamento, o que ocorria praticamente só na produção.

Essa informação é fundamental ao se lembrar que os metalúrgicos que recebiam até R$1.800,00 por mês representavam 95% do total de empregados da base do Sindicato e tinham também as seguintes características:

- 67% eram horistas;
- 68% trabalhavam na área da produção;
- 79% eram homens;
- metade deles tinham entre 25 e 39 anos (51%);
- quase a metade recebia salários até R$500,00 (45%), chegando a 80% os que recebiam salários até R$900,00;
- 97% tinham carteira assinada e contrato por tempo indeterminado em empresas dos Grupos de Negociação 19-3 (47%), Grupo 10 (22%) e Grupo 3 (22%) 3.

Isso não significa que nessas empresas não existissem trabalhadores terceirizados: a pesquisa somente detectou esses casos circunstancialmente, porque o universo para o sorteio da amostra foi o dos empregados registrados existentes em torno de março/96.

Antes de se passar ao relato mais detalhado, chama-se atenção para o conceito de tempo de trabalho. Entende-se aqui, por tempo de trabalho, o tempo disponibilizado na vida de uma pessoa para o trabalho. Conseqüentemente, faz-se referência, além das tradicionais horas trabalhadas contratuais e horas extras do presente, a outros tempos - passados e futuros - que também compõem o chamado tempo obrigado, dedicado ao trabalho profissional: ao tempo na categoria, ao tempo na atual empresa, e ao tempo previsto para continuar trabalhando antes de se aposentar. Levantaram-se informações, ainda, sobre uma das partes que integram o tempo forçado - o das exigências definidas pelo tempo obrigado, mas fora do trabalho propriamente dito: o tempo gasto no trajeto diário entre sua casa e o local de trabalho 4.

Como o movimento sindical vem discutindo, entre as medidas para combater o desemprego, a redução do tempo obrigado - baixando a jornada de trabalho para 40 horas e limitando ou eliminando as horas extras - registrou-se a opinião dos metalúrgicos de Guarulhos sobre essas propostas.

As informações são analisadas tomando-se dois grupos de metalúrgicos:

- estrato 1-3: os que recebiam até R$1.800,00 e que correspondiam a 95% do total;
- estrato 4: os que recebiam mais de R$1.800,00 e que representavam 5% do total.

Tempo na categoria e tempo na empresa

Há quanto tempo os metalúrgicos de Guarulhos pertenciam à categoria? E há quanto tempo trabalhavam nas atuais empresas? O tempo médio dos metalúrgicos do Estrato 1-3 na categoria e na empresa era substantivamente menor do que os do Estrato 4.



Gráfico 1



Os trabalhadores do Estrato 1-3 estavam, em média, há 10 anos na categoria e há quase 6 anos na firma atual. Mais de um terço desses metalúrgicos de Guarulhos e região estavam na categoria há menos de 5 anos, quase um terço de 6 a 15 anos e menos de um terço há mais de 16 anos. Para 80% da categoria, não houve interrupções para o desempenho de atividades em outro setor. Parece que ainda continuava alta a taxa de rotatividade entre empresas do mesmo setor para os menos qualificados, pois 61% estavam há menos de 5 anos nas empresas em que trabalham.

Os empregados do Estrato 4 estavam, em média, há 18 anos na categoria e há mais de 12 anos nas empresas. Ao contrário do grupo acima, quase três quartos eram metalúrgicos há mais de 15 anos e 20%, entre 6 e 15 anos. Quanto à permanência na mesma empresa, 43% ali estavam há mais de 15 anos; 34%, entre 6 e 15 anos; e 23%, até 5 anos. Quanto ao grupo de negociação ao qual pertencem as empresas em que trabalhavam, 48% concentravam-se nas firmas do Grupo 19-3 (semelhante ao Estrato 1-3), seguidos de 30% nas do Grupo 3 e 18% nas do Grupo 10.

Tempo de locomoção entre a casa e a empresa

Quanto tempo os metalúrgicos gastavam entre a casa e o trabalho? E em que condições se dava esse percurso? Indagou-se sobre o meio de transporte utilizado, o número de conduções necessárias para cobrir esse trajeto e o tempo gasto neste deslocamento.

Pelo Gráfico 2, vê-se que dentre os trabalhadores de salários mais baixos predominam os que se utilizam da condução oferecida pela empresa empregadora (34%) e do transporte coletivo (16%), enquanto que a maioria dos trabalhadores do Estrato 4 usava condução particular para ir trabalhar (64%). Quanto ao número de conduções, a maior parte dos trabalhadores utilizava uma única condução para chegar ao trabalho, principalmente os do Estrato 4 (94% contra 70% dos do Estrato 1-3). O tempo de deslocamento não era muito grande para a maior parte dos metalúrgicos de Guarulhos, sobressaindo-se a parcela dos que gastavam até 30 minutos para ir de casa ao trabalho (60% no caso dos do Estrato 1-3 e 66% no do Estrato 4).



Gráfico 2
Condições de transporte de casa para o trabalho



Jornada de trabalho

Quase 70% dos metalúrgicos de Guarulhos e região do Estrato 1-3 tinham uma jornada de trabalho fixa; 26,4% faziam horas extras, e destes, 95% recebiam por elas. A jornada de trabalho flexível era ainda muito pouco difundida, pois correspondia a somente 4% dos trabalhadores. Trabalhavam 5 dias por semana em geral (90%), um pouco menos se alocados na produção (86%); nessa área se concentrava a minoria que estendia seu trabalho por 6 dias, se considerarmos as áreas de apoio.



Gráfico 3



A maioria dos empregados do Estrato 4, que recebiam mais de R$1.800,00 por mês, trabalhavam 5 dias na semana, com horário de trabalho fixo (65%); divergindo dos estratos de remuneração mais baixa, 15% costumavam fazer horas extras e 20% experimentavam jornadas de trabalho flexíveis.

Essa mesma informação encontra-se, de forma mais detalhada, na Tabela 1, para o total e separadamente para cada um dos estratos de trabalhadores. Em geral, cerca de 82% da categoria que recebia até R$900,00 trabalhava 41 horas ou mais por semana. Do total dos metalúrgicos do Estrato 1-3 e especialmente do Estrato 1 (ou seja, para aqueles que recebiam até R$500,00), 16% tinham a jornada de 40 horas e 2% trabalhavam 39 horas ou menos. Os do Estrato 2, que recebiam mais de R$500,00 até R$900,00, eram os que menos trabalhavam, 40 horas, pois somente pouco mais de 13% o fazem; em compensação, eram os que possuíam jornadas de trabalho mais longas, correspondendo a 84% dos trabalhadores no estrato. Quanto aos do Estrato 3 - que ganhavam mais que R$900,00 até R$1.800,00 - eram os que concentravam a maior proporção dos que trabalhavam 40 horas semanais - quase 30% -, embora ainda 71% trabalhem jornadas iguais ou superiores a 41 horas. Importante: não havia diferenças, quanto a jornadas de trabalho, entre os empregados do Estrato 3 e os do Estrato 4!



Tabela 1 - Número de horas trabalhadas por semana pelos metalúrgicos de Guarulhos e região. Segundo estratos de salário
Julho de 1996 - (em %)
Número de horas por semana Estrato 1 -3 Estrato 1 Estrato 2 Estrato 3 Estrato 4
Até 39 horas 2,1 1,8 2,4 0,0 0,0
40 horas 16,2 16,3 13,7 28,5 28,5
41 horas ou mais 81,7 81,9 83,9 71,5 71,5
Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0

Fonte: Pesquisa DIEESE/Stimmmeg, julho 1996.

As horas extras

É significativo que, entre os trabalhadores do Estrato 1-3 que faziam horas extras, 66% eram da área da produção, 52% trabalhavam de 6 a 10 horas extras por semana, enquanto 33% faziam mais de 10 horas extras no mesmo período: o que equivalia, aproximadamente, a jornadas de 50 a mais de 50 horas semanais para uma boa parcela da categoria. Ainda sobre esse assunto, é bom lembrar que quase 32% desses metalúrgicos compunham seu salário também com horas extras.

Se 95% dos trabalhadores que recebiam até R$1.800,00 eram remunerados pelas horas extras, os do Estrato 4, com salários superiores a essa quantia, ao estenderem suas horas de trabalho, só eram remunerados em 80% dos casos. Entre tais empregados de salários mais altos, 64% faziam normalmente até 5 horas extras por semana e 26% mais de 10 horas extras no mesmo período.

Tempo para se aposentar

Com relação à Previdência Oficial, os dados da pesquisa revelam de forma inequívoca que a maioria dos trabalhadores (81% dos do Estrato 1-3 e 96% dos do Estrato 4) acha que não conseguirá viver com os proventos de sua aposentadoria. Ainda assim, a contribuição para a previdência privada não era, até aquele momento, uma alternativa para os trabalhadores: somente 2% dos trabalhadores do Estrato 1-3 e 18% dos do Estrato 4 contribuíam para algum tipo de plano.

Propostas contra o desemprego

Como principais propostas que estavam sendo formuladas durante o 1º semestre de 1996 para diminuir o desemprego, enumeramos: contrato temporário de trabalho, redução da jornada de trabalho, flexibilização do tempo trabalhado anualmente, limitação do número de horas extras, requalificação profissional e mudanças na política econômica/industrial.



Gráfico 4



Perguntados sobre elas, os trabalhadores do Estrato 1-3 consideravam como "boas" as seguintes propostas, em ordem de importância: a requalificação profissional (68%), mudanças na política econômica/industrial (66%), a limitação do número de horas extras (61%) e a redução da jornada de trabalho (52%). Sobre as duas últimas, é significativo o contingente de metalúrgicos que as consideravam "ruins": 22% eram contra a redução da jornada de trabalho e 20% contra a limitação do número de horas extras. Aqueles que exerciam funções na área da produção, embora concordando no geral, eram um pouco menos enfáticos quanto às vantagens da requalificação profissional (63%) e da limitação das horas extras (58%).

Metade da categoria tem uma avaliação negativa do contrato temporário de trabalho; mas 23% já o vê com bons olhos.

Quanto à flexibilização do tempo trabalhado anualmente, segundo a observação dos entrevistadores, poucos trabalhadores responderam demonstrando ter conhecimento dessa proposta. A impressão era de que a grande maioria não a conhecia, pelo menos com esssa terminologia. Assim, devem ser relativizados os resultados obtidos: 26% "boa", 19% "regular", 31% "ruim" e 24% "não sabe", este sim, neste caso, talvez o mais confiável.

Os empregados pertencentes ao Estrato 4 avaliaram, de forma semelhante aos do Estrato 1-3, mas sempre de forma mais positiva, as principais propostas em pauta para combater o desemprego: requalificação profissional (79%) e mudanças na política econômica e industrial (78%). A diferença maior aparece nas alternativas limitação das horas extras, aceita por 85%, e flexibilização do tempo trabalhado anualmente, considerada "boa" por 44% desse grupo de metalúrgicos e "ruim" por 20%. Quanto à avaliação do contrato temporário de trabalho, esse grupo ficou dividido por igual entre considerá-lo bom, regular e ruim.


1 Trata-se do "Perfil Profissional dos Metalúrgicos de Guarulhos, Arujá, Mairiporã e Santa Isabel - 1996", cujas principais conclusões foram publicadas em Boletim DIEESE, ano XVI, n. 192, março 1997, p. 8-14.
2 Classificaram-se as áreas de trabalho em três grandes grupos: Produção, Apoio 1 e Apoio 2.
3 Em linhas gerais, é a seguinte a composição dos Grupos de Negociação patronais: o Grupo 19-3 reúne firmas de eletro-eletrônicos e máquinas; o Grupo 10, uma variedade grande de empresas, voltadas para estamparia de metais, funilaria, reparação de veículos e acessórios, artefatos de ferro, metais e ferramentas em geral etc.; e o Grupo 3, as de autopeças.
4 Para as definições de tempo obrigado para o trabalho, tempo forçado (ou o gasto com transporte e formalidades burocráticas) e tempo livre (ou tempo de ócio) consultar Henri Lefebvre, La vida cotidiana en el mundo moderno, Madrid, Alianza Editorial, 1972, especialmente página 71.


Boletim nº 197
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