No final de julho, registrou-se um clima de euforia pela conclusão do processo de privatização do sistema Telebrás. Entretanto, no decorrer de agosto esta euforia deu lugar à preocupação, a partir da piora nos indicadores largamente utilizados para avaliar a situação econômica do país: queda de 40% do Índice da Bolsa de Valores do Estado de São Paulo (Ibovespa) e uma significativa redução do volume de reservas internacionais. 1 Saíram do país cerca de US$ 10 bilhões, o que anulou o efeito da entrada de divisas (cerca de US$ 4 bilhões) pelo pagamento de parcela da Telebrás, adquirida por investidores estrangeiros.
Tais fatos estão relacionados ao agravamento da crise financeira internacional, que colocou em dificuldade os países periféricos, como o Brasil, cujas economias dependem fortemente de recursos internacionais para financiar seus déficits comerciais e públicos.
Periodicamente, investidores e analistas financeiros (o chamado mercado) avaliam o grau de risco e de vulnerabilidade da economia de diversos países, considerando para tal o comportamento das taxas de câmbio, resultado fiscal e das contas externas, nível de reservas internacionais etc. Uma vez que avaliações negativas, que apontem para o risco dos investimentos em algumas economias, ganhem "credibilidade", o crédito externo contrai-se e a rota dos fluxos de capitais direciona-se para aplicações consideradas de menor risco.
Desta vez, tudo foi desencadeado a partir da Rússia. O país atravessava uma séria crise do Estado - que se prolonga até os dias de hoje -, que chegou a um nível alarmante de desorganização, com prejuízo para algumas de suas principais funções (arrecadação de impostos, pagamentos de salários etc.). Houve assim um crescimento assustador de seu déficit fiscal, acentuado conjunturalmente pela queda do preço do petróleo no mercado internacional. Em 17 de agosto, o país declarou moratória no pagamento das suas dívidas interna e externa e desvalorizou o rublo.
Esses fatos derrubaram a bolsa de valores russa e repercutiram nos mercados financeiros mundiais, sobretudo pelo comportamento dos investidores internacionais, que tentaram liquidar suas posições em outros mercados para compensar as perdas na Rússia.
No caso brasileiro, apesar do discurso oficial identificar a crise como de amplitude internacional, gerada pela ampla liberdade de circulação dos capitais, o que é fato, isto não exime a responsabilidade da "aposta" feita quando do lançamento do Plano Real ( os dois testes que serão explicados a seguir) pelas dificuldades que o país tem enfrentado.
Para derrubar a inflação, as autoridades econômicas brasileiras não hesitaram em acelerar a abertura comercial do país, sobrevalorizar o câmbio 2 , o que causou déficits crescentes da balança comercial (o superávit de US$ 10,4 bilhões de dezembro de 1994 foi progressivamente diminuído para o déficit de US$ 8,4 bilhões de dezembro de 1997), e manter juros elevados como forma de coibir uma explosão do consumo e atrair capitais externos.
O primeiro teste aconteceu no final de 1994, quando o México atravessou sérias dificuldades para quitar seus compromissos externos, sendo socorrido pelos Estados Unidos e tendo passado por um severo ajuste interno. Os reflexos dessa crise atingiram também Argentina e Brasil.
Em conseqüência da crise do México, que já apontava a vulnerabilidade desse modelo, houve uma tímida desvalorização do real (de 5,2%) e a criação de um sistema de bandas cambiais, que passaram a regular uma desvalorização cambial lenta e gradual (em média, de 0,6% ao mês ou 7,5% ao ano). Houve também uma consistente alta dos juros 3 , para, de um lado, atrair capitais externos em busca de ganhos elevados e fáceis, e, do outro, reduzir o crescimento do consumo interno.
O segundo teste (segundo semestre de 1997), a "crise asiática", atingiu principalmente os chamados tigres asiáticos (Hong Kong, Coréia, Malásia, Tailândia, Indonésia, dentre outros). Com problemas detectados em seus sistemas financeiros, esses países sofreram uma forte queda nas bolsas e tiveram de desvalorizar suas moedas. Essa crise repercutiu nos mercados financeiros mundiais, com destaque para as bolsas de valores.
Quando da crise asiática, entre as medidas tomadas, destacam-se: a alta das taxas de juros (a TBC subiu de 20,7% para 43,4% ao ano), o aumento de impostos e tímidos procedimentos de contenção da saída do capital estrangeiro do país.
O primeiro prejudicado pela alta dos juros tem sido sempre o próprio Estado, em função dos patamares elevados e dos curtos prazos de financiamento da dívida pública. Esta cresceu de R$ 61 bilhões, em 1994, para valores que hoje são superiores a R$ 300 bilhões 4 . As receitas adicionais dos processos de privatização de empresas estatais não têm sido suficientes para reverter o agravamento do desequilíbrio fiscal.
As respostas brasileiras foram, portanto, de alto custo para o país: dificuldades crescentes da indústria nacional, crescimento do desemprego e acréscimo violento da dívida pública.
Apesar da declaração do ministro da Fazenda de que "não há razão para que a crise da Rússia tenha efeitos sobre o Brasil" 5 , o país tem sido alvo de turbulências que podem vir a comprometer as perspectivas de crescimento para o futuro próximo, bem como as diretrizes da política econômica.
A campanha eleitoral, entretanto, é outro fator que deve ser considerado para tentar monitorar o quadro econômico nacional. O próprio ministro da Fazenda anunciou que "não haverá nenhuma medida de fundo até outubro, depois das eleições".
1 A hegemonia da lógica (e da esfera) financeira na atividade econômica, como era de esperar, chegou também ao debate econômico. É digno de nota que, em sua grande maioria, o noticiário econômico comece a falar em crise somente a partir do momento em que indicadores da movimentação e da valorização dos ativos financeiros sofram alguma deterioração. Ou seja, é como se, mesmo com 1,6 milhão de desempregados somente na Grande São Paulo, o Brasil estivesse no melhor dos mundos.
2 Hoje, os analistas acham que o real está valorizado entre 15% e 40% sobre o dólar.
3 A taxa de juros básica da economia passou para 35% ao ano.
4 A arrecadação total de impostos no país é de US$ 170 bilhões ao ano.
5 Declaração fornecida à imprensa em Porto Alegre, no dia 17/08/98.
Boletim nº 207
DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Económicos