As mudanças pelas quais vem passando a economia brasileira nos últimos anos tiveram reflexos no comportamento do movimento sindical do país, levando-o a alterar suas formas de pressão com vistas a conquistar melhores condições de vida e trabalho. As estatísticas sobre as greves, elaboradas pelo DIEESE, constituem-se em bom exemplo destas modificações. Os dados sobre as paralisações realizadas durante a década de 90 apontam um redirecio NAMEnto da ação sindical, tanto no que se refere às reivindicações apresentadas pelos trabalhadores quanto às estratégias de mobilização. Essas mudanças consolidaram-se a partir de 1994, com a introdução do Plano Real, e são conseqüências, fundamentalmente, de dois fatores: a redução dos patamares inflacionários e a elevação das taxas de desemprego.
Embora os levantamentos mensais de greve sejam realizados pelo DIEESE desde 1985, apenas a partir de 1992 passaram a ser sistematizados, ainda que de forma precária, para permitir a aferição do total de paralisações ocorridas ao longo de um ano. A partir de então, esta sistematização vem sendo aprimorada, para possibilitar análises sobre o comportamento sindical no que se refere às suas estratégias de mobilização.
Mesmo assim, como o Banco de Greves do DIEESE ainda não está totalmente implantado, esta análise toma por base dois tipos de dados. Na primeira parte, são consideradas as informações anuais das greves segundo grandes setores (público e privado) e suas motivações (independente dos setores), no período entre 1993 e 1997. Na segunda, foram selecionados os primeiros trimestres de quatro anos (1993, 1995, 1997 e 1998) e detalhados, nos grandes setores, dados referentes à duração, o envolvimento de trabalhadores e a motivação das greves.
A primeira contagem anual de greves, em 1992, apurou a ocorrência de 557 paralisações e 2.562.385 grevistas. No ano seguinte, a estatística indicou crescimento tanto no número de movimentos apurados (653) quanto no de trabalhadores envolvidos (3.595.770). Entre 1993 e 1994, observa-se um salto no número de greves (de 653, em 1993, para 1034, em 1994) e uma queda de 23% no total de grevistas, o que representa uma redução de 52% da média de grevistas por greve (tabelas 1 e 2). Além disso, 77% das paralisações tiveram como principal preocupação a melhoria da remuneração.
Essas informações permitiriam afirmar que, a exemplo do que ocorreu em planos econômicos anteriores, o movimento sindical, procurando alcançar melhores resultados, adotou a prática de negociar por empresa os prejuízos salariais imediatamente impostos pelas medidas gover NAMEntais. Tanto que, em 1995 e 1996, o número de paralisações continuou crescendo, atingindo, respectivamente, 1.056 e 1.258 greves. Já o total de grevistas recuou em 1995 (2.277.894), para voltar a crescer no ano seguinte (2.795.175). A média de trabalhadores envolvidos em cada movimento caiu para 2.157, em 1995, e oscilou ligeiramente para cima no ano seguinte, totalizando 2.222.
Apesar de o número de greves total continuar elevado (e até crescente) até 1996, a enorme alta nos níveis de inadimplência das empresas e a crescente taxa de desemprego já indicavam dificuldades para a mobilização dos trabalhadores, retratada pelo aumento na luta pelo cumprimento de direitos. Paralelamente, a edição pelo governo brasileiro, em fins de 1994, de medida provisória da possibilidade de negociação por empresa de uma parcela variável da remuneração, não incorporável aos salários, a título de participação nos lucros e resultados das empresas, introduz uma nova temática nas negociações coletivas.
Esse tema, que passa a ser um importante motivo de greve nos anos seguintes, reforça a dinâmica de descentralização das negociações coletivas por empresa. Além disso, nota-se uma explosão no número de greves motivadas por atraso no pagamento de salários e pelo descumprimento de cláusulas dos contratos coletivos da categoria (tabela 3), também realizadas por empresas.
Em 1997, há uma queda brutal no número de greves e grevistas. Em relação aos anos anteriores, observa-se a ocorrência de metade do número de greves (de 1.258, em 1996, para 630, em 1997), com um terço do número de grevistas (de 2.795.175, em 1996, para 808.925, em 1997) - um provável reflexo da crise de emprego, que, na região metropolitana de São Paulo, onde habitualmente concentra-se boa parte do movimento grevista, atingiu, em 1997, a maior média anual desde o início (em 1985) da realização da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), pelo convênio entre o DIEESE e a Fundação Seade: 16,0%.
O período pós 94 marcou uma mudança nas motivações das greves. As reivindicações sobre remuneração, apesar de ainda manterem grande importância, deixaram de ser a principal causa das greves, que passou a ser o descumprimento de obrigações trabalhistas por parte do empresariado. As greves por melhorias na remuneração caem, gradativamente, de 76,8%, em 1994, para 49,3%, em 1995; 40,1%, em 1996; e 32,4%, em 1997. As paralisações em protesto por descumprimento de direitos saíram de um patamar de 18,6%, em 1994, para 36,8%, em 1995; 42,2%, em 1996; e 43,0%, em 1997 (tabela 3 e anexo).
Também a reivindicação de participação nos lucros e resultados, ausente até 1994, passa a ocupar uma posição de destaque nas greves ocorridas a partir de 1995, quando representa 9,2% do total de paralisações, percentual que chega a 17,7% no ano seguinte, ficando em 15,1% em 1997 (tabela 3).
As greves cujas motivações estão ligadas à questão da jornada de trabalho apresentam um importante crescimento relativo no período - saem de um patamar de 3,3% do total de greves, em 1994; para 4,5%, em 1995; atingindo 11,5%, em 1996; e caindo para 7,6%, em 1997. Apesar dessa queda no último ano, é significativa sua maior participação em relação a 1994 (tabela 3).
Percebe-se, também, um incremento, ainda que não tão significativo, nas greves causadas por questões ligadas ao emprego (como demissões, estabilidade, novas contratações, mão-de-obra temporária, terceirização etc.), que passaram a representar 14,4% das paralisações do ano de 1997, enquanto entre 1994 e 1996 significavam aproximadamente 10% (tabela 3).
Duração das greves
Outro aspecto relevante refere-se ao tempo médio de duração das mobilizações. A comparação entre a duração média das greves realizadas nos primeiros trimestres dos anos de 1993 a 1998 demonstra uma queda acentuada da duração das paralisações: de 51 horas paradas por greve, no primeiro trimestre de 1993, para 36 horas, em 1995; 33 horas, em 1997; e 37 horas, em 1998. (tabela 4).
Nesse mesmo sentido, é significativo o crescimento relativo de movimentos com duração de até uma jornada em relação ao total de greves. No primeiro trimestre de 1993, estas greves representavam 29% das paralisações, passaram a 42%, em 1995, e 56%, em 1997. Assim como no caso da duração média, em 1998 há um pequeno desvio dessa tendência, caindo tal percentual para 51%, patamar ainda bastante elevado em relação a 1993 (tabela 5). Isso significa que, além da diminuição do número de grevistas e da média de trabalhadores por greve, conforme já havia sido observado, as paralisações têm sido realizadas por um período mais curto.
Com relação às especificidades das greves do setor público e do privado, é importante lembrar que no setor privado as mobilizações são, tradicionalmente, de menor duração, e envolvem um menor número de grevistas que as do setor público (tabelas 6 e 7).
Porém, ressalta-se a sucessiva queda na participação do setor público no total de greves, de grevistas e na relação trabalhadores x horas paradas, entre os anos de 1993 e 1997 (tabelas 1, 8 e 9). Esse refluxo pode ser creditado ao endurecimento do Estado nas relações trabalhistas, às privatizações e ao processo de ajuste de pessoal pelo qual passaram diversas unidades da federação, além do Governo Federal.
Por outro lado, em 1998 verifica-se um brutal crescimento da participação desse setor nos totais de grevistas e trabalhadores x horas paradas, que voltam aos mesmos patamares verificados em 1993 (tabelas 8 e 9). Mas seria prematura a conclusão de uma retomada das greves no setor público, seja pelo fato de ser este um ano eleitoral, que pode levar a um acirramento do conflito neste setor, seja pelas informações analisadas serem ainda preliminares e referirem-se apenas ao primeiro trimestre de cada ano.
No que concerne à distribuição das reivindicações, nota-se, em ambos os setores, um excepcional aumento relativo das greves que exigem o cumprimento de direitos e uma queda acentuada das reivindicações relativas à remuneração. As principais diferenças entre as reivindicações desses setores referem-se à participação nos lucros e resultados das empresas, que é característica do setor privado e à ascensão das greves motivadas por questões relativas ao emprego no setor público, que podem ser creditadas ao processo de privatizações e à discussão da quebra de estabilidade dos funcionários do setor. (tabela 10)
O conjunto das informações analisadas permite concluir que as principais características das greves realizadas a partir de meados da década de 90 são, além da queda significativa do número de grevistas, a fragmentação das paralisações e o cunho defensivo das reivindicações apresentadas. Isso indica uma grande dificuldade de mobilização dos trabalhadores.
Tabela 1 - Número de Greves por Grandes Setores
Ano
Público
privado
total
nº absoluto
% em relação ao total
nº absoluto
% em relação ao total
1992
244
43,8
313
56,2
557
1993
189
28,9
464
71,1
653
1994
292
28,2
742
71,8
1034
1995
240
22,7
816
77,3
1056
1996
386
30,7
872
69,3
1258
1997
178
28,3
452
71,7
630
Tabela 2 - Número de greves, grevistas e média de trabalhadores por greve (em números absolutos)
Anos
Greves
Grevistas
Média
1992
557
2.562.385
4.600
1993
653
3.595.770
5.507
1994
1.034
2.755.619
2.665
1995
1.056
2.277.894
2.157
1996
1.258
2.795.175
2.222
1997
630
808.925
1.284
Tabela. 3 - Distribuição das reivindicações (em %)
Motivos
1993
1994
1995
1996
1997
remuneração
61,5
76,8
49,3
40,1
32,4
direito
23,7
18,6
36,8
42,2
43,0
emprego
11,6
9,7
10,2
9,8
14,4
Plr
n/d
n/d
9,2
17,7
15,1
condições de trabalho
11,8
8,6
9,6
9,8
11,6
sindical
5,4
8,2
7,4
2,8
4,5
protesto contra medidas do governo
6,3
2,9
4,4
0,7
3,2
jornada
3,4
3,3
4,5
11,5
7,6
Tabela 4 - Duração média das greves por grandes setores (em horas) no primeiro trimestre (em nº absoluto)
Setor público
Setor privado
Total
1993
60
47
51
1995
38
36
36
1997
37
31
33
1998
41
36
37
Tabela 5 - Número de greves com duração de até uma jornada em relação ao total de greves nos grandes setores no primeiro trimestre (em %)
Setor público
Setor privado
Total
1993
33
27
29
1995
43
42
42
1997
54
57
56
1998
46
53
51
Tabela 6 - Média de trabalhadores parados por greve nos grandes setores no primeiro trimestre (em nº absoluto)
Setor público
Setor privado
Total
1993
34.188
2.225
8.793
1995
15.122
943
2.339
1997
1.213
595
714
1998
6.872
648
2.265
Tabela 7 - Média de trabalhadores X hora parada, por grandes setores no primeiro trimestre (em nº absoluto)
Setor público
Setor privado
Total
1993
6.082.894
153.641
1.371.980
1995
432.047
27.122
66.985
1997
96.574
18.884
33.824
1998
578.676
12.360
159.513
Tabela 8 - Total de grevistas por grandes setores no primeiro trimestre (em %)
Setor público
Setor privado
1993
80
20
1995
64
36
1997
33
67
1998
79
21
Tabela 9 - Total de trabalhadores X horas paradas por grandes setores no primeiro trimestre (em %)
Setor público
Setor privado
1993
91
9
1995
63
37
1997
55
45
1998
94
6
Tabela 10 - Distribuição das reivindicações por grandes setores no primeiro trimestre (em %)
Motivos
1993
1995
1997
1998
Público
Privado
Público
Privado
Público
Privado
Público
Privado
Remuneração
71
36
57
63
27
25
28
17
Direito
38
54
37
30
54
61
56
70
Emprego
2
14
6
11
20
13
22
18
Plr
0
0
0
1
10
21
2
10
Condições de trabalho
5
7
9
19
10
11
13
15
Sindical
2
8
6
9
5
5
4
6
Protesto contra medidas do governo
10
0
17
1
7
1
15
3
Jornada
0
7
0
9
7
2
0
4
ANEXO - Motivações das Greves Remuneração: salários diretos, adicionais, gratificações, auxílios, salários indiretos, piso salarial, adiantamento do pagamento, plano de cargos e salários, etc..
Direito: atraso no pagamento de salários ou de outros benefícios, descumprimento de acordo/convenção coletiva, desrespeito à legislação trabalhista
Plr: participação nos lucros e resultados das empresas
Jornada: horário de trabalho, redução da jornada, abono de faltas, jornada flexível, licenças, critérios de compensação ou prorrogação da jornada, extinção de horas-extras
Condições e relações de trabalho: higiene e segurança do trabalho, fornecimento de uniformes e equipamentos de segurança, cipa, protestos devidos a acidentes ocorridos, fornecimento de ferramentas de trabalho, fornecimento de recibos, critérios para transferência, critérios quanto às normas da empresa, protestos contra procedimentos da chefia
Emprego: estabilidade, demissões, contratação, mão de obra temporária, terceirização, introdução de novas tecnologias
Sindical: relacio NAMEnto entre sindicato e empresa, sindicalização, manutenção ou alteração de data base, eleição ou indicação de representantes sindicais, acesso dos representantes ao local de trabalho, pagamento ou compensação de dias parados em decorrência de greve, liberação de empregado para atividades sindicais, acesso às informações, comissões de empresa, normas quanto a empregado diretor do sindicato, renovação ou rescisão do acordo/convenção, abertura de negociação
Protesto contra medidas do governo: greves de solidariedade, exigência de participação em órgãos do governo, contra governo ou políticas gover NAMEntais
Boletim nº 208
DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Económicos