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DIEESE - Anuário dos Trabalhadores - Setembro de 1998
Índice do Boletim DIEESE - Setembro de 1998

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O MOVIMENTO GREVISTA NOS ANOS 90

As mudanças pelas quais vem passando a economia brasileira nos últimos anos tiveram reflexos no comportamento do movimento sindical do país, levando-o a alterar suas formas de pressão com vistas a conquistar melhores condições de vida e trabalho. As estatísticas sobre as greves, elaboradas pelo DIEESE, constituem-se em bom exemplo destas modificações. Os dados sobre as paralisações realizadas durante a década de 90 apontam um redirecio NAMEnto da ação sindical, tanto no que se refere às reivindicações apresentadas pelos trabalhadores quanto às estratégias de mobilização. Essas mudanças consolidaram-se a partir de 1994, com a introdução do Plano Real, e são conseqüências, fundamentalmente, de dois fatores: a redução dos patamares inflacionários e a elevação das taxas de desemprego.


Embora os levantamentos mensais de greve sejam realizados pelo DIEESE desde 1985, apenas a partir de 1992 passaram a ser sistematizados, ainda que de forma precária, para permitir a aferição do total de paralisações ocorridas ao longo de um ano. A partir de então, esta sistematização vem sendo aprimorada, para possibilitar análises sobre o comportamento sindical no que se refere às suas estratégias de mobilização.

Mesmo assim, como o Banco de Greves do DIEESE ainda não está totalmente implantado, esta análise toma por base dois tipos de dados. Na primeira parte, são consideradas as informações anuais das greves segundo grandes setores (público e privado) e suas motivações (independente dos setores), no período entre 1993 e 1997. Na segunda, foram selecionados os primeiros trimestres de quatro anos (1993, 1995, 1997 e 1998) e detalhados, nos grandes setores, dados referentes à duração, o envolvimento de trabalhadores e a motivação das greves.

A primeira contagem anual de greves, em 1992, apurou a ocorrência de 557 paralisações e 2.562.385 grevistas. No ano seguinte, a estatística indicou crescimento tanto no número de movimentos apurados (653) quanto no de trabalhadores envolvidos (3.595.770). Entre 1993 e 1994, observa-se um salto no número de greves (de 653, em 1993, para 1034, em 1994) e uma queda de 23% no total de grevistas, o que representa uma redução de 52% da média de grevistas por greve (tabelas 1 e 2). Além disso, 77% das paralisações tiveram como principal preocupação a melhoria da remuneração.

Essas informações permitiriam afirmar que, a exemplo do que ocorreu em planos econômicos anteriores, o movimento sindical, procurando alcançar melhores resultados, adotou a prática de negociar por empresa os prejuízos salariais imediatamente impostos pelas medidas gover NAMEntais. Tanto que, em 1995 e 1996, o número de paralisações continuou crescendo, atingindo, respectivamente, 1.056 e 1.258 greves. Já o total de grevistas recuou em 1995 (2.277.894), para voltar a crescer no ano seguinte (2.795.175). A média de trabalhadores envolvidos em cada movimento caiu para 2.157, em 1995, e oscilou ligeiramente para cima no ano seguinte, totalizando 2.222.

Apesar de o número de greves total continuar elevado (e até crescente) até 1996, a enorme alta nos níveis de inadimplência das empresas e a crescente taxa de desemprego já indicavam dificuldades para a mobilização dos trabalhadores, retratada pelo aumento na luta pelo cumprimento de direitos. Paralelamente, a edição pelo governo brasileiro, em fins de 1994, de medida provisória da possibilidade de negociação por empresa de uma parcela variável da remuneração, não incorporável aos salários, a título de participação nos lucros e resultados das empresas, introduz uma nova temática nas negociações coletivas.

Esse tema, que passa a ser um importante motivo de greve nos anos seguintes, reforça a dinâmica de descentralização das negociações coletivas por empresa. Além disso, nota-se uma explosão no número de greves motivadas por atraso no pagamento de salários e pelo descumprimento de cláusulas dos contratos coletivos da categoria (tabela 3), também realizadas por empresas.

Em 1997, há uma queda brutal no número de greves e grevistas. Em relação aos anos anteriores, observa-se a ocorrência de metade do número de greves (de 1.258, em 1996, para 630, em 1997), com um terço do número de grevistas (de 2.795.175, em 1996, para 808.925, em 1997) - um provável reflexo da crise de emprego, que, na região metropolitana de São Paulo, onde habitualmente concentra-se boa parte do movimento grevista, atingiu, em 1997, a maior média anual desde o início (em 1985) da realização da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), pelo convênio entre o DIEESE e a Fundação Seade: 16,0%.

O período pós 94 marcou uma mudança nas motivações das greves. As reivindicações sobre remuneração, apesar de ainda manterem grande importância, deixaram de ser a principal causa das greves, que passou a ser o descumprimento de obrigações trabalhistas por parte do empresariado. As greves por melhorias na remuneração caem, gradativamente, de 76,8%, em 1994, para 49,3%, em 1995; 40,1%, em 1996; e 32,4%, em 1997. As paralisações em protesto por descumprimento de direitos saíram de um patamar de 18,6%, em 1994, para 36,8%, em 1995; 42,2%, em 1996; e 43,0%, em 1997 (tabela 3 e anexo).

Também a reivindicação de participação nos lucros e resultados, ausente até 1994, passa a ocupar uma posição de destaque nas greves ocorridas a partir de 1995, quando representa 9,2% do total de paralisações, percentual que chega a 17,7% no ano seguinte, ficando em 15,1% em 1997 (tabela 3).

As greves cujas motivações estão ligadas à questão da jornada de trabalho apresentam um importante crescimento relativo no período - saem de um patamar de 3,3% do total de greves, em 1994; para 4,5%, em 1995; atingindo 11,5%, em 1996; e caindo para 7,6%, em 1997. Apesar dessa queda no último ano, é significativa sua maior participação em relação a 1994 (tabela 3).

Percebe-se, também, um incremento, ainda que não tão significativo, nas greves causadas por questões ligadas ao emprego (como demissões, estabilidade, novas contratações, mão-de-obra temporária, terceirização etc.), que passaram a representar 14,4% das paralisações do ano de 1997, enquanto entre 1994 e 1996 significavam aproximadamente 10% (tabela 3).

Duração das greves

Outro aspecto relevante refere-se ao tempo médio de duração das mobilizações. A comparação entre a duração média das greves realizadas nos primeiros trimestres dos anos de 1993 a 1998 demonstra uma queda acentuada da duração das paralisações: de 51 horas paradas por greve, no primeiro trimestre de 1993, para 36 horas, em 1995; 33 horas, em 1997; e 37 horas, em 1998. (tabela 4).

Nesse mesmo sentido, é significativo o crescimento relativo de movimentos com duração de até uma jornada em relação ao total de greves. No primeiro trimestre de 1993, estas greves representavam 29% das paralisações, passaram a 42%, em 1995, e 56%, em 1997. Assim como no caso da duração média, em 1998 há um pequeno desvio dessa tendência, caindo tal percentual para 51%, patamar ainda bastante elevado em relação a 1993 (tabela 5). Isso significa que, além da diminuição do número de grevistas e da média de trabalhadores por greve, conforme já havia sido observado, as paralisações têm sido realizadas por um período mais curto.

Com relação às especificidades das greves do setor público e do privado, é importante lembrar que no setor privado as mobilizações são, tradicionalmente, de menor duração, e envolvem um menor número de grevistas que as do setor público (tabelas 6 e 7).

Porém, ressalta-se a sucessiva queda na participação do setor público no total de greves, de grevistas e na relação trabalhadores x horas paradas, entre os anos de 1993 e 1997 (tabelas 1, 8 e 9). Esse refluxo pode ser creditado ao endurecimento do Estado nas relações trabalhistas, às privatizações e ao processo de ajuste de pessoal pelo qual passaram diversas unidades da federação, além do Governo Federal.

Por outro lado, em 1998 verifica-se um brutal crescimento da participação desse setor nos totais de grevistas e trabalhadores x horas paradas, que voltam aos mesmos patamares verificados em 1993 (tabelas 8 e 9). Mas seria prematura a conclusão de uma retomada das greves no setor público, seja pelo fato de ser este um ano eleitoral, que pode levar a um acirramento do conflito neste setor, seja pelas informações analisadas serem ainda preliminares e referirem-se apenas ao primeiro trimestre de cada ano.

No que concerne à distribuição das reivindicações, nota-se, em ambos os setores, um excepcional aumento relativo das greves que exigem o cumprimento de direitos e uma queda acentuada das reivindicações relativas à remuneração. As principais diferenças entre as reivindicações desses setores referem-se à participação nos lucros e resultados das empresas, que é característica do setor privado e à ascensão das greves motivadas por questões relativas ao emprego no setor público, que podem ser creditadas ao processo de privatizações e à discussão da quebra de estabilidade dos funcionários do setor. (tabela 10)

O conjunto das informações analisadas permite concluir que as principais características das greves realizadas a partir de meados da década de 90 são, além da queda significativa do número de grevistas, a fragmentação das paralisações e o cunho defensivo das reivindicações apresentadas. Isso indica uma grande dificuldade de mobilização dos trabalhadores.


Tabela 1 - Número de Greves por Grandes Setores
Ano Público privado total
nº absoluto % em relação ao total nº absoluto % em relação ao total
1992 244 43,8 313 56,2 557
1993 189 28,9 464 71,1 653
1994 292 28,2 742 71,8 1034
1995 240 22,7 816 77,3 1056
1996 386 30,7 872 69,3 1258
1997 178 28,3 452 71,7 630


Tabela 2 - Número de greves, grevistas e média de trabalhadores por greve
(em números absolutos)
Anos Greves Grevistas Média
1992 557 2.562.385 4.600
1993 653 3.595.770 5.507
1994 1.034 2.755.619 2.665
1995 1.056 2.277.894 2.157
1996 1.258 2.795.175 2.222
1997 630 808.925 1.284


Tabela. 3 - Distribuição das reivindicações
(em %)
Motivos 1993 1994 1995 1996 1997
remuneração 61,5 76,8 49,3 40,1 32,4
direito 23,7 18,6 36,8 42,2 43,0
emprego 11,6 9,7 10,2 9,8 14,4
Plr n/d n/d 9,2 17,7 15,1
condições de trabalho 11,8 8,6 9,6 9,8 11,6
sindical 5,4 8,2 7,4 2,8 4,5
protesto contra medidas do governo 6,3 2,9 4,4 0,7 3,2
jornada 3,4 3,3 4,5 11,5 7,6


Tabela 4 - Duração média das greves por grandes setores
(em horas) no primeiro trimestre
(em nº absoluto)

Setor público Setor privado Total
1993 60 47 51
1995 38 36 36
1997 37 31 33
1998 41 36 37


Tabela 5 - Número de greves com duração de até uma jornada em relação ao total de
greves nos grandes setores no primeiro trimestre
(em %)

Setor público Setor privado Total
1993 33 27 29
1995 43 42 42
1997 54 57 56
1998 46 53 51


Tabela 6 - Média de trabalhadores parados por greve nos grandes setores no primeiro trimestre
(em nº absoluto)

Setor público Setor privado Total
1993 34.188 2.225 8.793
1995 15.122 943 2.339
1997 1.213 595 714
1998 6.872 648 2.265


Tabela 7 - Média de trabalhadores X hora parada, por grandes setores no primeiro trimestre
(em nº absoluto)

Setor público Setor privado Total
1993 6.082.894 153.641 1.371.980
1995 432.047 27.122 66.985
1997 96.574 18.884 33.824
1998 578.676 12.360 159.513


Tabela 8 - Total de grevistas por grandes setores no primeiro trimestre
(em %)

Setor público Setor privado
1993 80 20
1995 64 36
1997 33 67
1998 79 21


Tabela 9 - Total de trabalhadores X horas paradas por grandes setores
no primeiro trimestre
(em %)

Setor público Setor privado
1993 91 9
1995 63 37
1997 55 45
1998 94 6


Tabela 10 - Distribuição das reivindicações por grandes setores
no primeiro trimestre
(em %)
Motivos 1993 1995 1997 1998
Público Privado Público Privado Público Privado Público Privado
Remuneração 71 36 57 63 27 25 28 17
Direito 38 54 37 30 54 61 56 70
Emprego 2 14 6 11 20 13 22 18
Plr 0 0 0 1 10 21 2 10
Condições de trabalho 5 7 9 19 10 11 13 15
Sindical 2 8 6 9 5 5 4 6
Protesto contra medidas do governo 10 0 17 1 7 1 15 3
Jornada 0 7 0 9 7 2 0 4


ANEXO - Motivações das Greves

Remuneração: salários diretos, adicionais, gratificações, auxílios, salários indiretos, piso salarial, adiantamento do pagamento, plano de cargos e salários, etc..

Direito: atraso no pagamento de salários ou de outros benefícios, descumprimento de acordo/convenção coletiva, desrespeito à legislação trabalhista

Plr: participação nos lucros e resultados das empresas

Jornada: horário de trabalho, redução da jornada, abono de faltas, jornada flexível, licenças, critérios de compensação ou prorrogação da jornada, extinção de horas-extras

Condições e relações de trabalho: higiene e segurança do trabalho, fornecimento de uniformes e equipamentos de segurança, cipa, protestos devidos a acidentes ocorridos, fornecimento de ferramentas de trabalho, fornecimento de recibos, critérios para transferência, critérios quanto às normas da empresa, protestos contra procedimentos da chefia

Emprego: estabilidade, demissões, contratação, mão de obra temporária, terceirização, introdução de novas tecnologias

Sindical: relacio NAMEnto entre sindicato e empresa, sindicalização, manutenção ou alteração de data base, eleição ou indicação de representantes sindicais, acesso dos representantes ao local de trabalho, pagamento ou compensação de dias parados em decorrência de greve, liberação de empregado para atividades sindicais, acesso às informações, comissões de empresa, normas quanto a empregado diretor do sindicato, renovação ou rescisão do acordo/convenção, abertura de negociação

Protesto contra medidas do governo: greves de solidariedade, exigência de participação em órgãos do governo, contra governo ou políticas gover NAMEntais


Boletim nº 208
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